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Roberto Rodrigues fala sobre o cooperativismo em palestra no RS

Carlos Barbosa/RS – Ocorreu na última 2ª feira, 03/09/2012, em Carlos Barbosa, a palestra do líder cooperativista Roberto Rodrigues. A palestra foi promovida pela Sicredi Serrana RS e reuniu cerca de 600 pessoas, entre coordenadores de núcleo, colaboradores da cooperativa e demais convidados. Com o objetivo de ampliar e divulgar conhecimentos sobre o cooperativismo, o Portal do Cooperativismo de Crédito traz na sequencia, com exclusividade, na íntegra, esta importante palestra.

Palestrante: Roberto Rodrigues, embaixador especial da FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação) para o cooperativismo mundial, ex-Ministro da Agricultura, ex-Presidente da OCB, ex-Presidente da ACI (Aliança Cooperativa Internacional) e coordenador do Centro de Agronegócios da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Rodrigues iniciou a palestra enfatizando que foi presidente de uma cooperativa agrícola em São Paulo em 1971 e que em 1974 buscou informações sobre cooperativismo de crédito com o Sr. Mario Kruel Guimarães, grande liderança do cooperativismo no sul do país. Deste trabalho, iniciado em Guariba-SP, surgiram 16 cooperativas no Estado de São Paulo, inspiradas no modelo do Rio Grande do Sul. Tamanho foi o sucesso alcançado em São Paulo que o trabalho de constituição de cooperativas de crédito espalhou-se por todo o país, o que levou o Sr. Roberto Rodrigues a ser eleito Presidente da OCB em 1985.

Quando esteve na OCB, foi feita uma cartilha explicando para todas as cooperativas o que era uma constituição, para que ela servia e o que era a Assembleia Nacional Constituinte, dizendo da sua importância e pedindo sugestões do que deveria constar na Constituição Federal de 1988. Deste trabalho resultou uma grande quantidade de sugestões, das quais remanesceram 5 artigos, que posteriormente foram enviados à todos os partidos políticos dizendo a eles que os candidatos que firmassem um compromisso, antes das eleições, de defender aqueles 5 artigos, seriam apoiados pelo cooperativismo, independente do partido, desde que tivessem em seu currículo alguma história vinculada ao associativismo. Foram eleitos 47 deputados comprometidos com os 5 artigos. Estes deputados, reunidos no gabinete do Ministério da Agricultura, foram convidados a conseguir outros deputados comprometidos com a causa, atingindo posteriormente 217 deputados federais e alguns senadores comprometidos com os 5 artigos. Feito isto, buscou-se uma pessoa para coordenar este trabalho, um articulador, com capacidade de convencimento, tendo sido escolhido o Sr. Vergílio Périus, hoje Presidente da OCERGS, que estruturou uma assessoria parlamentar e trabalhou junto a cada um dos deputados para conseguir a aprovação dos 5 artigos, sem protestos, sem mobilizações, mas buscando o apoio de um por um dos deputados.

Como forma de sensibilizar os deputados, algumas cooperativas alguns doaram brindes que eram dados aos parlamentares. Como exemplo destes brindes, a Cooperativa Vitivinícola Aurora preparou 3 garrafas de vinho para cada deputado, entregue em sua casa e com seu nome impresso nas garrafas. No rótulo das garrafas estavam os 5 artigos que eram defendidos pelo cooperativismo. Também foi feito um relógio de acrílico em que constavam os 5 artigos, também dados a cada parlamentar e também para suas secretárias, que tinham um papel fundamental na estruturação das agendas.

Através deste incansável trabalho, foi possível incluir 6 artigos e não 5 na Constituição Federal de 1988. O sucesso desta mobilização fez com que o Sr. Roberto Rodrigues fosse convidado a visitar vários países do mundo para explicar como havia ocorrido esta mobilização no Brasil, servindo de modelo para o cooperativismo mundial.

Um dos artigos inseridos na Constituição Federal dava isonomia do cooperativismo de crédito no Sistema Financeiro Nacional, sendo que véspera da votação da Constituinte o relator retirou este artigo do texto original. Após nova articulação o artigo foi reinserido, votado e aprovado no dia seguinte. Surge daí o Artigo 192 da Constituição Federal que prevê: “Do Sistema Financeiro Nacional – O sistema financeiro nacional, estruturado de forma a promover o desenvolvimento equilibrado do País e a servir aos interesses da coletividade, em todas as partes que o compõem, abrangendo as cooperativas de crédito, será regulado por leis complementares que disporão, inclusive, sobre a participação do capital estrangeiro nas instituições que o integram.”

 

As Cooperativas Constroem um Mundo Melhor

Após este breve histórico do cooperativismo, Roberto Rodrigues apresentou como tema de sua palestra “as cooperativas constroem um mundo melhor”, abordando inicialmente a falta de líderes no mundo, citando a falta de apoio popular dos grandes chefes de governo mundiais, a exemplo dos EUA, França, Alemanha, Japão, dentre outros. Rodrigues alertou que isto é uma ameaça para a democracia, pois em um momento de crise global, com a ausência de lideres, ficamos sem rumo, tendo citando o fraco desempenho da Rio + 20, como exemplo. O risco é o de, em não havendo mais líderes no mundo democrático, acabarmos seguindo para outro regime de governo menos democrático, citando a China, que mesmo com a ausência de democracia apresenta alto índice de crescimento econômico. Precisamos urgentemente mostrar para o mundo que o modelo democrático é o melhor.

A OCDE projeta que o mundo deverá aumentar em 20% a produção de alimentos para atender o crescimento demanda até 2020. O Brasil é o país que mais ampliará a produção, com previsão de aumento de 40% no período. O lado preocupante desta estatística é que a OCDE diz que para o mundo crescer 20%, o Brasil precisa crescer 40%. O Brasil tem uma grande oportunidade de liderar este processo. Rodrigues destacou que o grande problema mundial é que apesar da população mundial estar crescendo, a população rural está em queda. Significa que cada vez menos pessoas precisam produzir alimentos para mais pessoas. Destacou também que a renda per capital nos países emergentes cresce 3 vezes mais do que nos países desenvolvidos e que 87% do crescimento da população está ocorrendo nos países emergentes, onde a população por estar melhorando sua renda per capita tende a consumir mais do que consumia no passado. Este padrão de consumo pode gerar um problema alimentar e energético no mundo. Neste sentido, o Brasil já demonstrou que tem condições de aumentar a produtividade sem prejudicar o meio ambiente, sendo que nos últimos 20 anos o Brasil aumentou em 187% a produção de grãos, mesmo tendo ampliado apenas 34% a área plantada. Rodrigues destacou que o mesmo ocorreu em outras áreas da produção no país.

Trouxe a informação de que o agronegócio do país tem salvo o saldo da balança comercial do país, demonstrando os gráficos abaixo:

O Brasil tem condições de liderar este projeto, mas precisamos de organização. “O que diferencia um país desenvolvido de um país subdesenvolvido é seu grau de organização da sociedade.”

Estamos vivendo em um período de incertezas, de mudanças, de instabilidade, mas este cenário não pode causar desespero e sim gerar a reflexão para as oportunidades existentes. “Foi assim que surgiram os Pioneiros de Rochdale, foi assim quando caiu o Muro de Berlim: perplexidade”. Vivemos em um tempo de esperança e de otimismo por conta de: maior expectativa de vida; mais tecnologia, inovação: maior bem estar; redução da pobreza; mais democracia, mais comunicação, …

Roberto Rodrigues destacou que existe uma pesquisadora na Universidade Erasmus, de Roterdã, chamada Noreena Hertz (veja o link), que diz que hoje vivemos o capitalismo estilo Gucci, traduzido por egoísmo, individualismo, consumo e riqueza, modelo este que não se sustenta. A pesquisadora defende a teoria do cooperativismo capitalista, teoria esta também defendida por Roberto Rodrigues, traduzido pelo coletivismo, redes, decisão colegiada, participação na governança, todos querem ser donos. “Precisamos mudar a lógica do mundo, através do cooperativismo.”

Rodrigues destacou que o cooperativismo viveu até hoje dois momentos distintos, a primeira onda, onde o cooperativismo era como um rio que dividia o cooperativismo do socialismo; e a segunda onda, onde o cooperativismo passa a ser uma ponte entre as duas margens do rio, aproveitando o que cada sistema tem de melhor e mitigando os efeitos negativos de cada sistema econômico.

“O cooperativismo é uma doutrina que visa corrigir as distorções sociais através do econômico. É uma doutrina que mitiga os impactos dos sistemas econômicos, mas não os transforma.”

Condições para o sucesso de uma cooperativa: Uma cooperativa precisa ser necessária, ter viabilidade econômica, espírito associativo na comunidade, ter liderança.

COOPERATIVISMO DE CRÉDITO

Roberto Rodrigues destacou a necessidade dos sistemas cooperativos intercooperarem, dizendo que não há no Brasil, uma única entidade para representar o cooperativismo de crédito, referindo-se ao fato de que cada sistema de crédito cooperativo busca suas próprias soluções ao invés de buscar o fortalecimento através de uma solução comum a todos. Segundo ele, fusões e incorporações são oportunidades e não problemas.

Rodrigues apresentou também dados que demonstram que as cooperativas de crédito são muito fortes em praças que os bancos não têm interesse de atuar, como é o caso de muitas cidades pequenas e médias no interior dos estados.

Quanto à governança, ressaltou que é imprescindível sua existência para dar velocidade nas decisões da cooperativa. “O novo dirigente cooperativista deve tomar decisões”, referindo-se ao fato de que em um mercado dinâmico como o que vivemos o dirigente não tem mais tempo para consultar os associados sempre que tiver de tomar uma decisão.

 

O ANO INTERNACIONAL DAS COOPERATIVAS

Roberto Rodrigues destacou que a ONU (Organização das Nações Unidas) é o órgão mundial de defesa da paz e que com a globalização da economia vivenciamos a exclusão social e a concentração de riqueza, aspectos estes inimigos da paz. As cooperativas, através de seus princípios e valores, mitigam estes efeitos e por isto da escolha do Ano Internacional das Cooperativas. Rodrigues inclusive defende que o cooperativismo deveria ganhar o Prêmio Nobel da Paz. “Cooperativa é mais do que um modelo de negócios: é uma forma de viver, em permanente evolução.”

Finalizando Roberto Rodrigues resumiu sua fala com as seguintes palavras: “faltam líderes no mundo e com isto ficamos sem rumo, sem direção. O Brasil tem um papel importante, pois tem condições de contribuir com a produção sustentável de alimentos e o cooperativismo é a melhor forma da comunidade se organizar.”

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