Seriam duas as Provisões? Uma Suave e a outra Severa?, por Ricardo Coelho

Provisões_ Ricardo CoelhoEm nossa vida vivemos situações tão curiosas que merecem ser compartilhadas e, assim sendo, tomo a liberdade de relatar um desses pitorescos acontecimentos. Tive a oportunidade de viajar a Alemanha para conhecer o modelo local de Cooperativismo de Crédito. Durante essa viagem, um de nossos jantares foi em uma cantina que produzia bons vinho e estava localizada na estrada que fazia divisa com seu próprio parreiral. Ainda estava claro quando chegamos lá e pude ver que o belo parreiral tinha algo de estranho e que me chamou a atenção. Percebi que em cada início de “rua” de uva havia uma roseira. Então, aproveitando a gentileza de nossa intérprete Cristina, pedi para ela descobrir o porquê daquilo que para mim, de início, não parecia ser lógico. Analisando melhor notei que as roseiras estavam ali estrategicamente postadas por um motivo muito especial e não apenas para embelezar o parreiral. A resposta para este estranhamento foi muito curiosa e naquela noite minha incansável curiosidade ficou saciada com tamanha simplicidade e aplicabilidade. Ocorre que as roseiras estão lá para prevenir que pragas ataquem o parreiral. Assim, sendo a rosa mais frágil que a uva, as eventuais pragas atacam primeiro as rosas “machucando-as”, e o agricultor, ao facilmente perceber este ataque, tem tempo para iniciar uma ação para proteger seu parreiral. Portanto, quando vemos uma roseira no início de uma “rua” de parreira, é algo comparado com o que ocorre com a lógica da provisão. Algumas são tão inofensivas que até “embelezam” nosso negócio, outras provisões podem nos destruir.

Contexto binário das provisões: Sabidamente pelo perfil conservador de nossos créditos, são os riscos “A” e “B” que dominam a quantidade de nossas provisões, mas sua representatividade em volume dependerá do momento e do tipo da Singular. Já os riscos de “C” a “H” são quantitativamente poucos, mas podem representar um volume relevante e complexo. Assim sendo, para melhor entendimento do conceito proposto por este artigo, iremos dividi-lo em dois grandes grupos: Provisão Suave e Provisão Severa. Mas o que seriam cada um deles?

Provisão Suave: São compostas por créditos concedidos a clientes de risco “A” e “B”, os quais guardam uma suave relação com o risco. Se não, vejamos: no risco “A” temos uma provisão de 0,5% do saldo devedor, o que significa dizer que precisamos de 200 clientes com o mesmo perfil para que este nível de provisão possa cobrir a perda de um deles. Algo muito parecido ocorre com os clientes do risco “B” (1%), onde precisamos de 100 clientes desse perfil para cobrir a perda de um deles. O risco “A” e o “B” guardam uma importante correlação entre si, que é o fato do atraso não superar 30 dias. Assim, fica claro que estamos diante de uma Provisão Suave, a qual tem a função muito mais educativa, quanto ao impacto crescente da provisão e à régua legal do risco, do que a intenção de ser uma solução efetiva na cobertura do risco real que pretende a absorver.

Cabe aqui ressaltar que a Provisão Suave tende a crescer ou reduzir na relação direta em que oscila a qualidade e a velocidade da concessão de novos créditos, e também de acordo com a natural variação dos riscos dos clientes que nos devem. E que, diante da Provisão Suave, em muitos momentos, a força promovida pelo Capital Social destes sócios devedores passa a ter uma importante função secundária que é a de agir como uma “garantia estendida”, muito mais expressiva do que o provisionado nas Provisões Suaves (Riscos “A” e “B”). Portanto, a garantia da Provisão Suave não tem a força e a coerência como garantia frente ao saldo que representa.

Provisão Severa: Seriam os riscos acima de “C” até “H”. Eles trazem a informação efetiva que o cliente passa por uma verdadeira temporada de falta de liquidez, haja vista que, mesmo no risco “C”, que é o menor risco da Provisão Severa, o atraso já supera o prazo de 31 dias, o que é impactante para qualquer gestor de crédito. Portanto, a elevadíssima severidade de qualquer risco deste grupo de provisão deve-se ao elástico prazo em atraso e a possibilidade real dele continuar em atraso e se tornar uma perda. Assim sendo, quanto à gestão de uma instituição financeira, deveria ser o longo atraso no pagamento em si mesmo o maior ponto de atenção e que deveria motivar revisões e acompanhamento para uma eficaz gestão. Dando, então, um menor destaque no percentual provisionado, seja ele 3%, 10%, 30%, 50%,70% e 100%, apesar de reconhecermos o impacto em nosso resultado dessas elevadíssimas provisões.

A diferença coerente entre a Provisão Suave e a Severa: A Provisão Suave, em conceito, é um processo que serve muito mais para atender a um quesito legal e contábil, o qual, de forma didática, demonstra muito mais o início da curva de agravamento e provisão de risco do que, efetivamente, a criação de um coerente colchão creditício contábil para as eventuais inadimplências deste grupo.

Como, então, seria a Provisão Severa? Sabemos que a provisão é dinâmica e que os clientes migram suavizando ou agravando seu risco, assim influenciando o percentual da provisão. Em alguns casos o cliente pode ir para um risco mais acentuado, o que automaticamente implica em uma Provisão mais Severa. Nesse caso, como vimos, muito mais importante do que a letra é o risco, e o seu impacto em nossos resultados definirá a forma como iremos gerir todo o cenário que é ocasionado pelo alongamento do prazo de atraso. Prazo este que é, em síntese, o maior sinal de derrocada da liquidez do devedor. Então, é na Provisão Severa que devemos nos debruçar para aprender e agir de forma a reduzir ao máximo nossa perda.

Perdas fazem parte do nosso negócio: Reconhecemos como natural que em nosso modelo de negócio percamos dinheiro frente à concessão de crédito. Também constatamos que, se desejarmos ter perdas iguais a zero ou insignificantes, basta não darmos crédito ou só concedermos crédito para clientes hiper líquidos e que nos dão ótimas garantias, além de serem muito informados, exigentes, raros e muito assediados por nossos concorrentes. Entretanto, essa ação conservadora certamente não nos permitirá ter receitas suficientes para nos impulsionar em nosso mercado, o qual exige uma gradual aptidão por risco em carteiras de recursos próprios, através de soluções com correta precificação deste risco em suas taxas.

Provisão é métrica de risco e precificação de taxa: Fica claro que o importante nos riscos da Provisão Severa é nos atentarmos para os sinais claros de instabilidade econômica dada por esses clientes. É, portanto, prudente que passemos a analisar a coerência de nossas ações de acompanhamento e cobrança para que resguardem nosso valor principal e os juros devidos, sem esquecermos de dar liquidez e qualidade as eventuais garantias. Assim, quanto mais formos proativos e estratégicos, mais evitaremos que uma parcela desta provisão de risco se transforme em prejuízos em um montante acima do precificado em nossa taxa de juros, o que denotaria um sério descompasso comercial. Isso nos faz concluir que, havendo perdas significativas acima do precificado, e sem ter como base um número macro anterior ou percentual qualquer, estamos diretamente agredindo nossos resultados e nossa intenção de termos uma saudável, dinâmica e crescente carteira de crédito. Este descompasso entre o precificado na taxa e a perda efetiva mina diretamente nosso projeto de perpetuação.

Provisão deveria subsidiar nossa política de prevenção e cobrança: Se bem entendida e aplicada a provisão legal é um excelente balizador para a definição de nossa política de prevenção e cobrança, já que propõe que o risco potencial gerido tem como base o prazo de atraso em créditos já liberados. Portanto, independe da garantia e da idoneidade potencial deste devedor ou de seu eventual aval, ou outro critério eclético que, por ventura, possa existir. Sendo assim, isso guarda uma correlação direta com a experiência e a prática das melhores instituições de varejo.

O dinamismo coerente da provisão: Se observarmos a lógica por detrás da legislação que determina os percentuais de provisão, veremos que a variação do risco “A” (0,5%) para o “B” (1%) é de 100%, mas, se consideramos que o prazo que as distingue é de 15 dias, temos um percentual de 200% ao mês. Seguindo essa mesma lógica, vê-se que de 31 dias (risco “C”) a 91 dias (risco “E”) é mantida esta mesma agressividade de 200% de variação, sendo que em uma destas variações passa de 240%. Mas, de 121 dias (risco “F”) até 180 dias (Risco “H”), essa variação mensal entre essas faixas cai a números menores que 50%. Ou seja, fica claro que o sinal de risco é consistente quando o atraso passa de 15 dias até 120 dias, depois é uma questão de ir preparando o cenário para momentos mais estressantes e de eventuais perdas.

Importante: Optamos por incluir o risco “B” no grupo de Provisão Suave, pois acreditamos que ele é ainda um risco muito discreto. Isso torna nossa classificação mais coerente com o cotidiano de nossa sociedade e com a facilidade com que nossos processos internos transformam um risco “A” em “B”. Além do que, em muitos casos, o prazo de até 30 dias permite que um eventual descompasso creditício de nosso cliente possa ser satisfatoriamente solucionado pela entrada mensal de receita, algo muito usual em nossa sociedade e que a prática atesta como plausível.

Imaginemos que hoje um cliente de Provisão Suave chegue a um atraso que supere os 30 dias, passando a risco “C”. Então, de forma automática, irá migrar para as Provisões Severas (riscos de “C” a “H”), as quais impõem maiores valores retidos na contabilidade para prevenção de possíveis perdas, para que, assim, possam efetivamente suportar este valor expressivo de prejuízo.

Percebe-se, então, que, de forma coerente, a lógica das previsões para perdas creditícias se baseia fortemente no tempo de atraso, o que deveria direcionar nossos esforços comerciais para entender de forma ágil o desregramento financeiro do devedor, agindo de forma ajuda-lo, resguardando nossos interesses, e não apenas concentrando nossos esforços em monitorar o provisionamento de mais valores que penalizam o resultado.

Padrão de 90 dias em atraso? Vemos que alguns agentes do mercado acompanham com especial atenção a inadimplência acima de 90 dias, como vemos no índice INAD90 do Bacen, o qual é divulgado com destaque. Tanto que em muitos dos agentes econômicos e na mídia especializada rotularam a expressão defaul (inadimplência) para identificar preferencialmente atrasos mais substanciados, ou seja, acima de 90 dias de atraso em uma carteira ou em mercado. Realmente um indicador muito robusto se desejarmos ter uma visão macro da realidade socioeconômica de um segmento ou região, mas que não é eficaz para a gestão de uma carteira ativa de crédito.

Mas onde mora o risco desta parametrização do atraso ser relevante somente quando estiver acima de 90 dias? A prática demonstra que em 90 dias de inadimplência já não há quase mais nada a se fazer, seja para ajudar o devedor, defender nossas garantias ou mesmo acessar outros bens do devedor, de seus avais ou formalmente coligados. Portanto, não sendo você um birô de informações, entidade de pesquisa ou o órgão regulador, acreditamos que ter ações específicas atreladas a um prazo tão elástico de inadimplência é realmente desejar se entorpecer com o acompanhamento da contabilização das perdas, e não gerir de forma saudável a inadimplência, a qual deveria ser motivo de atenção, já após o primeiro dia de atraso.

Reflexões finais: A saudável gestão da provisão prescreve que a separemos minimamente em dois grupos: Provisão Suave e Provisão Severa. Esses, apesar de guardarem entre si a necessidade de atender a um quesito legal, podem, se respeitarmos cada uma de suas especificidades, ser melhores geridos se dispendermos esforços comerciais frente às Provisões Suaves, pois são, em tese, situações eminentemente previsíveis, contábeis e legais, as quais não denotam risco acima do mínimo intrínseco de cada concessão de crédito. Já as Provisões Severas guardam explicitamente uma correlação real com o risco, determinando um ambiente mais estressante e de risco efetivo.

Devemos observar sempre que, assim como roseiras em nossas “ruas” de crédito, é o tempo que irá sinalizar que um crédito pode ou não estar sendo atacado por pragas, e cabe a nós aplicarmos “fungicidas” específicos para cada uma destas pragas. Até, eventualmente, eliminando a planta do parreiral que apresentar pragas acima do aceitável.

Concordar é secundário. Refletir é urgente

Convite: Com apenas duas semanas de abertura das inscrições já temos 17 (34%) de inscritos das 50 vagas para o IV Fórum de Líderes do Cooperativismo de Crédito, a ser realizado em Foz do Iguaçu – PR nos dias 16 e 17 (quinta e sexta) de fevereiro de 2017. Certamente repetirá o sucesso dos eventos anteriores! Solicite informações

Ricardo Coelho – Consultoria e Treinamento Comercial para o Cooperativismo de Crédito
41-3569-0466 – Postado 20/11/2016 – www.ricardocoelhoconsult.com.br

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