Yunus e a raiz cooperativista do Grameen Bank, por Carlos Alberto dos Santos

Inseparável da história e da fama do Grameen Bank é a personalidade do seu fundador Prof. Muhammad Yunus.

Depois do doutorado na Vanderbilt University, em 1974 ele voltou dos USA para Bangladesh. O jovem professor de economia se frustrou com o mundo estéril dos modelos matemáticos na Universidade de Chittagong, porque não via caminho para a diminuição da pobreza de seus conterrâneos.

Em busca de um caminho apropriado para o combate à pobreza, um dia encontrou uma tecelã de bambu. Ela o contou que toda sua produção era entregue a um agiota que lhe havia emprestado menos de US$1 para a compra da matéria prima. Do seu próprio bolso Prof. Yunus emprestou a ela e a outros 41 tecelãs e tecelões em média de US$ 0,64.

Dois anos depois a faculdade de economia da Universidade de Chittagong introduziu em algumas aldeias da redondeza um programa de microcrédito que, nos anos seguintes, daria origem ao Grameen Bank em outubro de 1983, com o suporte de vários bancos governamentais e generosa ajuda da cooperação internacional.

Em setembro 2017 o Grameen Bank contava com 8,9 milhões de membros, dos quais 8,6 milhões mulheres, e uma carteira de crédito de US$1,7 bilhão (www.grameen-info.org/monthly-reports-09-2017). Além de sua participação no mercado financeiro de Bangladesh, o Grameen tornou-se um grande conglomerado econômico, com empresas de telefonia, energia solar, fundação e ramificações em centenas de países.

A personalidade de Prof. Yunus teve um papel importante não só na filosofia da empresa, como também na mobilização de ajuda financeira para o banco. Em 2006, no auge de sua fama ele recebe o prêmio Nobel da Paz.

Apesar da grande visibilidade de todas as pequenas e grandes estórias sobre Prof. Yunus e o Grameen Bank, é pouco conhecido que as raízes mais profundas da ideia de fomentar pequenos agricultores e pequenos comerciantes através da construção de institutos financeiros especiais, levam até o Reino Prussiano em meados do século 19.

Fundado por Friederich W. Raiffeisen (1818-83) em 1847, a “Associação das Caixas de Crédito” (Darlehnskassenverein), foi a primeira instituição financeira especializada em créditos e depósitos para população rural pobre. Quase ao mesmo tempo Hermann Schulze-Delitzsch (1808-83) fundou a primeira „Associação para Adiantamentos“ (Vorschussverein) com o objetivo de prover os comerciantes nas pequenas cidades com créditos.

Depois de uma rápida expansão, já em 1910 as cooperativas de crédito contavam com 1,4 milhões de membros na Prússia. Nesta época foram criadas numerosas cooperativas de crédito no norte da Itália, na Irlanda e também, na Índia.

Nos anos 80 do século 19 o governo de Madras, no sul da Índia, naquele tempo sob domínio britânico, soube das cooperativas de crédito da Prússia e estimulou a fundação das primeiras cooperativas de crédito na região. Em 1912 elas contavam com 4.000, em 1946 mais de nove milhões de membros.

Estas cooperativas se localizavam principalmente no estado de Bengali. Em 1947, com a independência da Índia, algumas partes de Bengali formaram o Paquistão do Leste, o qual tornou-se Bangladesh em 1971.

A participação dos membros no capital do Grameen (como Yunus sempre enfatiza, “as mulheres são as donas do Grameen”), o crédito em grupo, o aval solidário (e seu implícito controle social) são alguns dos elementos fundamentais do Grameen Bank (e suas replicações pelo mundo afora) que possuem profundas raízes nos primórdios do cooperativismo europeu do século 19.

Não obstante, a narrativa em torno do Grameen Bank não tematiza as suas similaridades com o cooperativismo de crédito. Uma possível explicação pode ser o contexto histórico de seu surgimento, na esteira da luta do subcontinente indiano pela independência e de distanciamento das políticas e instrumentos identificados a época com o império britânico.

Instituições financeiras baseados em laços de solidariedade e cooperação podem assumir diferentes formas e – em bases competitivas e sustentáveis – serem um importante instrumento do desenvolvimento econômico e social.

Por Carlos Alberto dos Santos, economista, professor e consultor. Especialista em Sistema Financeiro e Políticas de Desenvolvimento.

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