Adalberto Felinto da Cruz Junior

O futuro do sistema financeiro passa pelas cooperativas, com Adalberto Felinto

A conclusão de que o futuro do sistema financeiro passa pelas cooperativas é baseado na entrevista de Adalberto Felinto da Cruz Júnior, chefe do Departamento de Supervisão de Cooperativas e Instituições Não Bancárias (Desuc) do Banco Central do Brasil à revista MundoCoop (19/jan/2026).

Um sistema financeiro em transição acelerada

O Sistema Financeiro Nacional (SFN) vive uma transformação estrutural sem precedentes. A combinação de digitalização, interoperabilidade e orientação por dados — capitaneada por iniciativas como Pix, Open Finance e os primeiros passos de tokenização — vem redefinindo a forma como produtos são concebidos, como os serviços são distribuídos e como o cliente se relaciona com as instituições. Esse novo ambiente eleva a concorrência, aumenta as exigências regulatórias e exige das organizações governança mais robusta, gestão de riscos mais madura e eficiência operacional contínua.

Nesse contexto, um ator tradicional ganha novo protagonismo: as cooperativas de crédito. Elas combinam capilaridade territorial, vínculo comunitário e proximidade com os cooperados, elementos que as posicionam como força de inclusão financeira e pilar de estabilidade sistêmica — sobretudo onde o sistema bancário tradicional se retrai. A interpretação deste papel, e dos requisitos para que ele se fortaleça, foi o centro da entrevista de Adalberto Felinto, chefe do Departamento de Supervisão de Cooperativas e Instituições Não Bancárias (Desuc), publicada pela MundoCoop.

As cooperativas de crédito como instrumento de inclusão e estabilidade

As cooperativas de crédito exercem uma função singular no ecossistema do SFN: são anticíclicas e enraizadas no território. Elas reciclam a poupança local, irrigam cadeias produtivas de base regional e garantem acesso a crédito e serviços em áreas menos atendidas. Esse papel social-econômico, segundo a visão apresentada por Adalberto, será ainda mais relevante em um mercado que se torna, simultaneamente, mais digital e mais competitivo.

O modelo híbrido — que combina presença física com soluções digitais — aparece como o desenho ideal para preservar o vínculo com a comunidade sem abrir mão de escala e eficiência. Em segmentos como crédito rural e MPMEs, o cooperativismo já responde por participações superiores a 20% em diversos mercados, prova de um crescimento que combina proximidade, especialização por nichos e governança com propósito.

O novo patamar regulatório para as cooperativas de crédito: governança, riscos e o SRC

Se o papel das cooperativas é cada vez mais relevante, o sarrafo regulatório subiu na mesma velocidade. Um ponto central da entrevista é a ênfase no Sistema de Riscos e Controles (SRC), visto como uma evolução da supervisão baseada em riscos. O recado é claro: crescer com segurança exigirá das cooperativas estruturas mais maduras nas suas três linhas de defesa, conselhos atuantes e capacitados, integração real entre governança, riscos e controles, e processos padronizados que sustentem o aumento de escala com qualidade.

Mais que uma obrigação normativa, o SRC surge como oportunidade estratégica: ele aumenta a resiliência, reduz vulnerabilidades e fortalece a sustentabilidade do modelo cooperativo — especialmente num período de inadimplência elevada, maiores requerimentos de capital e mudanças nos padrões contábeis que trarão mais transparência e comparabilidade (com menção à Resolução nº 4.966, que inaugura uma nova etapa de consolidação e leitura dos demonstrativos).

O risco cibernético também deixa de ser cenário hipotético: ele já se materializou e agora integra o centro da agenda de gestão. A operação digital só será virtuosa se vier acompanhada de segurança por desenho, resposta a incidentes, treinamento contínuo e monitoramento inteligente.

O que explica o avanço das cooperativas de crédito — e o que limita o próximo salto

A expansão das cooperativas no SFN não é acidental. O avanço decorre de um tripé: (1) capilaridade territorial com foco em comunidades e nichos; (2) modelo participativo de governança, que alinha produto ao propósito; e (3) solidez demonstrada mesmo em ambientes adversos. Esses motores sustentaram as cooperativas até aqui.

O futuro, contudo, exigirá novos propulsores. Entre as limitações identificadas, a entrevista aponta: diferenças de escala entre instituições, assimetria tecnológica em parte do setor, baixo grau de integração e a necessidade de governança mais profissionalizada, capaz de responder à crescente complexidade regulatória. Em outras palavras: os motores do crescimento passado não bastam para o novo ciclo.

Intercooperação: de princípio a estratégia

Poucos pontos são tão enfaticamente defendidos na entrevista quanto este: a intercooperação não é apenas um valor doutrinário do cooperativismo; é um vetor de competitividade sistêmica. Na perspectiva de supervisão, ganharão terreno as estruturas que:

  • Centralizam serviços (especialmente os intensivos em tecnologia e compliance);
  • Padronizam processos (para reduzir custos, acelerar ciclos e elevar a qualidade);
  • Fortalecem auditorias cooperativas e supervisão auxiliar (para difundir boas práticas e reduzir heterogeneidade);
  • Consolidam informações e indicadores, inclusive ESG, para aumentar a transparência e o conhecimento do setor pela sociedade.

Em suma, sistemas integrados geram escala, eficiência, governança consistente e capacidade de investimento, um conjunto de ativos decisivos em mercados regulados e competitivos.

As oportunidades à frente: dados, digital e sustentabilidade

A entrevista também destaca um campo vasto de oportunidades para quem elevar padrões e investir com foco:

  • Open Finance e a economia de dados habilitam personalização, precificação inteligente e gestão de risco mais fina — com decisões orientadas por analytics e modelos preditivos;
  • O Pix aumentou a inclusão transacional e reduziu barreiras de entrada para serviços financeiros digitais, abrindo espaço para experiências fluídas em pagamentos, crédito e investimentos;
  • A digitalização permite ganhar alcance sem perder identidade, desde que a experiência preserve o vínculo local como diferencial;
  • ESG e desenvolvimento regional sustentável deixam de ser “compliance” para se tornarem fontes de vantagem competitiva, onde o cooperativismo já parte na frente, por natureza e propósito.

Agenda para os próximos 5–10 anos: profissionalização e inovação com propósito

Ao projetar o SFN no horizonte de uma década, a visão apresentada é de um ambiente mais digital, interoperável, comparável e orientado a riscos. Para que as cooperativas sejam protagonistas, três movimentos parecem inadiáveis:

1) Intercooperação como estratégia de escala

Centralizar, padronizar e compartilhar para reduzir custos, acelerar entregas e elevar a qualidade — especialmente em tecnologia, cibersegurança, riscos/controles e operações reguladas.

2) Profissionalização da governança

Conselhos mais técnicos e atuantes, três linhas de defesa robustas, cultura de riscos disseminada e sistemas de medição de desempenho que conectem estratégia, risco e retorno. A ambição é reduzir a heterogeneidade entre cooperativas e estabelecer um piso de qualidade elevado.

3) Inovação e dados com segurança por desenho

Adoção de tecnologias emergentes, uso intensivo de dados e IA responsável, e cibersegurança tratada como prioridade estratégica, não apenas como compliance. O digital deve somar à proximidade local, e não substituí-la.

Tecnologia + governança + propósito: a equação vencedora

A mensagem final é realista e ambiciosa. Não é hora de desatenção: o ambiente macro permanece desafiador, as exigências regulatórias sobem, a inadimplência preocupa, e o risco cibernético já é uma realidade. Ao mesmo tempo, nunca houve tantas alavancas de crescimento sustentável ao alcance do cooperativismo.

O caminho que se desenha combina profissionalização da governança, maturidade em riscos e controles, escala via intercooperação, inovação orientada por dados e a preservação do vínculo comunitário — diferencial que nenhuma fintech consegue replicar com facilidade. As cooperativas que unirem tecnologia e propósito, com disciplina e qualidade, tendem a liderar o novo ciclo do SFN.

Síntese: O sistema financeiro que emerge será mais digital, transparente e orientado a riscos. Nesse cenário, prosperarão as instituições capazes de transformar proximidade em eficiência e propósito em vantagem competitiva. As cooperativas de crédito têm todos os elementos para cumprir esse papel — desde que acelerem a modernização com governança.


Elaborado pelo Portal do Cooperativismo Financeiro

Este artigo foi elaborado com base na entrevista de Adalberto Felinto da Cruz Júnior, chefe do Desuc/BCB, publicada pela revista MundoCoop em 19 de janeiro de 2026. O texto organiza e interpreta as ideias do entrevistado, preservando seus principais tópicos e ênfases, e as articula em uma narrativa analítica.

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