A Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou, em 15 de dezembro de 2025, a Resolução A/RES/80/182, estabelecendo que o Ano Internacional das Cooperativas será celebrado a cada dez anos. O marco reposiciona o cooperativismo no centro da agenda global de desenvolvimento, como instrumento capaz de conciliar competitividade econômica com inclusão social e sustentabilidade ambiental.
Um ciclo decenal para fortalecer a representação global
O reconhecimento fortalece a agenda de representação das cooperativas nos 156 países onde estão presentes, garantindo um ciclo decenal para mobilizar governos, organismos internacionais e o próprio movimento em torno de medidas concretas de fomento ao modelo. Com o impulso da ONU, o cooperativismo pode acelerar o diálogo com tomadores de decisão e ampliar parcerias estratégicas, com foco em competitividade e impacto territorial.
Próximo ciclo: Ano Internacional das Cooperativas em 2035
Ao instituir a celebração a cada dez anos, a ONU indica que, após 2025, o próximo Ano Internacional das Cooperativas ocorrerá em 2035, seguindo o calendário decenal recém-aprovado.
Por que a ONU retomará o Ano Internacional a cada década?
Até agora, o cooperativismo é o único modelo econômico que recebeu duas designações de Ano Internacional — em 2012 e 2025. Com a nova resolução, a ONU amplia o peso político do cooperativismo, criando um ciclo de visibilidade e articulação que tende a acelerar reformas, investimentos e políticas públicas pró-cooperativas.
Como destacou o diretor-geral da ACI, Jeroen Douglas, a decisão “dá ainda mais peso político ao movimento cooperativo, reforçando para o mundo o papel das cooperativas na construção de uma sociedade mais justa e próspera”. Para ele, “este ciclo decenal representa um imenso reconhecimento global das contribuições duradouras das cooperativas para um mundo mais equitativo, o que captura a essência da missão do nosso movimento”.
Cooperativismo e sustentabilidade: contribuição direta à Agenda 2030
A resolução reafirma o papel das cooperativas na erradicação da pobreza e da fome, na inclusão social (com atenção a mulheres e jovens), na igualdade de gênero (inclusive na liderança), e na adaptação e mitigação das mudanças climáticas. O texto também destaca contribuições específicas para melhorar as condições econômicas e sociais de povos indígenas, comunidades rurais e populações vulneráveis, promovendo inclusão financeira e desenvolvimento local.
Recomendações estratégicas da ONU aos países
Para orientar governos na criação de ambientes mais favoráveis ao desenvolvimento do cooperativismo, a Resolução A/RES/80/182 apresenta um conjunto abrangente de recomendações. Essas diretrizes traduzem, em ações concretas, a visão da ONU sobre como o modelo cooperativo pode contribuir de forma mais efetiva para o desenvolvimento sustentável, a redução das desigualdades e o fortalecimento econômico de comunidades em todo o mundo. A seguir, estão os principais eixos de ação sugeridos pela Assembleia Geral para que os países ampliem o impacto das cooperativas em seus territórios.
- Marcos legais e ambiente regulatório favoráveis – Revisar leis e normas para facilitar a criação e o crescimento das cooperativas, abordando acesso a capital, autonomia, competitividade e tributação justa.
- Apoio orçamentário e instrumentos financeiros – Desenvolver linhas de crédito, fundos garantidores e incentivos que respeitem as especificidades do modelo cooperativo.
- Fortalecimento setorial – Apoiar cooperativas agrícolas e financeiras, ampliando a inclusão digital e os serviços financeiros de proximidade para o desenvolvimento territorial.
- Consulta às cooperativas nas VNRs dos ODS – Incluir cooperativas na preparação dos relatórios nacionais apresentados ao HLPF, fortalecendo a participação do setor na governança do desenvolvimento.
- Educação, formação e governança democrática – Investir em educação de membros, liderança, capacitação técnica e boas práticas de governança.
- Campanhas de sensibilização pública – Estimular campanhas de conscientização para difundir o modelo cooperativo, seus valores e resultados.
- Pesquisa, dados e estatísticas – Reforçar pesquisa aplicada e sistemas de dados (estatísticas desagregadas e comparáveis internacionalmente) sobre a contribuição das cooperativas.
- Integração em planos nacionais de desenvolvimento – Incorporar cooperativas de forma explícita em planos e estratégias nacionais, articulando políticas e orçamentos públicos para acelerar o alcance dos ODS.
Observância anual: Dia Internacional das Cooperativas (CoopsDay)
Além do ciclo decenal, a ONU convoca governos e organizações a observarem e comemorarem anualmente o CoopsDay, no primeiro sábado de julho, mantendo o tema no debate público de forma recorrente e mobilizando ações locais e nacionais.
Dimensão econômica e social do cooperativismo
O movimento cooperativo mundial reúne cerca de 3 milhões de cooperativas no mundo e gera trabalho e renda para cerca de 280 milhões de pessoas — aproximadamente 10% do emprego global.
Entre as 300 maiores cooperativas e mutualidades do planeta, o faturamento conjunto alcançou US$ 2,79 trilhões (dados do World Cooperative Monitor 2025), evidenciando que o modelo entrega escala econômica sem abrir mão de propósito e governança democrática.
Avanços institucionais no Brasil
O Ano Internacional de 2025 impulsionou discussões e iniciativas de reconhecimento do cooperativismo no país, inclusive no campo cultural e regulatório. O movimento nacional vem articulando medidas para valorizar o papel das cooperativas na história, identidade e desenvolvimento do Brasil — com reflexos em marcos legais, fomento e mensuração de impacto.
Um legado para a próxima década
Com a criação do ciclo decenal, a ONU estabelece uma rota estável e previsível para que governos, reguladores, academia e o próprio movimento cooperativo planejem ações de longo prazo: modernizar legislações, ampliar financiamento, fortalecer dados e evidências, e consolidar o reconhecimento social e político do cooperativismo como protagonista da transição para economias mais inclusivas e sustentáveis.
Elaborado pelo Portal do Cooperativismo Financeiro

