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O Movimento Desjardins

O legado em tudo admirável de Alphonse Desjardins

Nos compêndios sobre as raízes do cooperativismo de crédito é-nos apresentada a lista dos precursores, com o resumo de suas vidas, suas inquietações e experiências. Todos quiseram servir às suas comunidades, a gente mais humilde (maioria) e incapaz de atender às exigências dos bancos para obter serviços bancários.

Entendiam que era preciso orientar as pessoas para a vida em grupo, na ajuda mútua, em esforço coletivo, e para a formação de poupanças. É assim que conhecemos as figuras mais divulgadas e mais ilustres: Hermann Schulze-Delitzch, Friedrich W. Raiffeisen e Wilhelm Haas, na Alemanha; Luigi Luzzatti e Leone Wollembrog, na Itália. Alphonse Desjardins (1854-1920), lá do outro lado do Atlântico – Canadá, Quebec, Lévis (na época com uns 10 mil habitantes) – também é contado entre os precursores.

Desjardins é uma raiz muito especial para nós das Américas no crédito cooperativo. A grandeza de sua pessoa colocou-o na galeria dos artífices do crédito cooperativo mais habilidosos e devotados à causa dos menos favorecidos. Desjardins foi uma repercussão para sempre. Foi inicialmente jornalista, o que lhe possibilitou bastante penetração nas comunidades. Era muito religioso. Já bem maduro na vida, e cidadão respeitado, exerceu funções na Câmara dos Comuns.

Foi muito estimado em razão de suas idéias cristãs e reformadoras. Angustiava-se diante da ganância, da usura e da agiotagem correntes. No seu país (e nos EUA) os juros eram excessivamente elevados, produto de um sistema financeiro elitista e escravizante. Entristecia-o ver o êxodo de muitos patrícios para a Nova Inglaterra em busca de trabalho e sobrevivência. Juntamente com outras pessoas de maior sensibilidade social, inclusive alguns deputados, punha-se a estudar meios de redenção da sociedade em queda. Era preciso encontrar caminhos de educação e poupança que protegessem os trabalhadores, os agricultores, os pequenos empreendedores.

Eles deveriam ser educados para agir, com esforço próprio, contra a agiotagem e a ganância, e para montar fundos de capitais para financiar suas necessidades. Seu biógrafo, Pierre-George Roy, registrou que Desjardins costumava ter longas conversas com os amigos Théophile Carrier, Joseph Verrault e Louis-Joseph Roberge, mais tarde seus mais hábeis e devotados colaboradores. Foi também nessa época que leu o livro The People’s Banks (Os Bancos Populares), de Henry William Wolff.

Esse livro foi um grande achado para Desjardins. Wolff era presidente da ACI (Aliança Cooperativa Internacional). Por intermédio dele Desjardins passou a manter correspondência com outros cooperativistas da Europa. Pôde assim conhecer e estudar as idéias e as práticas da Alemanha e Itália, Raiffeisen e Luzzatti em especial. Ao planejar o que fazer, não copiou exatamente os modelos de lá, mas as linhas para um traçado do que vieram a ser as caixas populares de sua criação, e sempre merecendo o apoio firme de amigos e do clero.

A caixa popular seria uma sociedade cooperativa de poupança e de crédito, com capital variável e responsabilidade limitada. Uma cooperativa porque reunia pessoas que juntavam suas poupanças em comum para se servirem mutuamente com crédito a juros baixos. Então, era preciso começar uma maratona: educar as pessoas para a poupança sistematizada, para o crédito mútuo e para o trabalho organizado.

No dia 6 de dezembro de 1900 estava criada a primeira caixa popular – em sua cidade natal, Lévis. Iniciou operações em 23 de janeiro de 1901, com a insignificante quantia de 26 dólares. E com um pronunciamento que entrou para a história do crédito cooperativo: “Esta associação de crédito é acima de tudo uma associação de pessoas, não de dólares”. E rezou – sua famosa oração ao Sagrado Coração de Jesus. Sabia ele que estava iniciando uma empreitada arriscada.

O trabalho de Desjardins foi se expandindo e obtendo cada vez mais o apoio e admiração de trabalhadores, artesãos, agricultores, comerciantes, parlamentares, bem assim da elite nacionalista e da Igreja. Em 1906, com a aprovação de uma lei para os sindicatos e associações, começaram a pontilhar mais unidades cooperativas. Em 1915, os recursos das caixas somavam 215 mil dólares. 90% dos empréstimos eram inferiores a 100 dólares cada. Predominavam os empréstimos de 1 a 50 dólares.

A partir de 1930, já havia até agroindústrias cooperativas de pequeno a grande porte, e companhias de seguros como subproduto do cooperativismo. A Grande Depressão (1929) arruinou muitas economias, os bancos foram quase a zero. Mas as caixas populares sobreviveram e continuaram a desenvolver-se, por serem unidades financeiras populares e simples, sendo-lhes também mais fácil a prática da cooperação.

Em 1945, ao final da II Guerra, já havia no Canadá 908 unidades. Desjardins escreveu muito sobre a caixa popular. Fez muitas palestras. Ficou célebre o seu Catecismo das Caixas Populares. E não só a gente simples, mas muita gente importante e do clero aderiu à instituição caixa popular. Os jovens estudantes também, alvo que foram de uma campanha muito especial dirigida a eles.

Assim nasceu o processo cooperativo de crédito mútuo para as pessoas — os membros ajudando-se solidária, mútua e organizadamente. O modelo repercutiu com força nos Estados Unidos da América, por sua vez fonte de experiência para nós brasileiros e para os países da América Latina. O papa Pio X, em 1913, conferiu a Desjardins o título de Comendador da Ordem de São Gregório, o Grande. Faleceu em 1920 após longa enfermidade. Deixou um legado em tudo admirável para os povos e um respeitável exército de obreiros cooperativistas.

Fonte: Site SICOOB Executivo

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