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Uma relevante herança social do Padre Theodor Amstad, por José Odelso Schneider

Theodor Amstad, suíço de nascimento, quando optou por ser jesuíta, o fez numa época em que a Alemanha, onde iniciaria sua formação, emergira um sério conflito entre o catolicismo e o Governo Alemão de Bismarck, com o famoso “Kulturkampf”, que levou à expulsão dos jesuítas da Alemanha, há poucos anos retornados a este País, após sua Restauração.. Por isso, Amstad realizou seus períodos de formação, na Holanda, na Áustria e os quatro anos de teologia em Ditton-Hall na Inglaterra. Lá também se tornou sacerdote e, pouco depois, em 1885 toma o rumo do Brasil. Talvez foi providencial esta estadia na Inglaterra, pois a nação inglesa experimentava na época uma plena efervescência no surgimento e consolidação de cooperativas, especialmente promovidas a partir da década de 1850 , pelo movimento dos “socialistas cristãos”, liderados por Vansittart Edward Neale, que interagia com alguns Pioneiros de Rochdale.

Aqui chegando em 1885, logo passou a ser destinado para várias frentes, sendo uma das mais estáveis a de São Sebastião do Caí. Por isso, o Pe. Theodor Amstad, enquanto pároco ou vigário paroquial em São Sebastião do Cai, passou também a percorrer e a trabalhar em Lajeado, Feliz, Novo Hamburgo, Dois Irmãos Ivoti, Taquara, Montenegro, São José do Hortêncio, Harmonia e Caxias do Sul. Além de suas empenhativas atividades especificamente pastorais e religiosas, como bom religioso que era, dedicou também um bom tempo para as questões da promoção econômica e social dos produtores rurais familiares de então. Realizava todas estas atividades no lombo de uma mula – “sua montaria”, como cavaleiro itinerante ou como “Caixeiro Viajante de Deus”, em estradas muitas delas precárias e até perigosas. Em 1906/1907, enquanto lotado em Caí, foi duas vezes a Cerro Largo e de lá seguiu até a Província de Misiones/Argentina, para acompanhar de perto colonos alemães na fundação e estruturação de cooperativas de crédito – as “caixas rurais”. Isto ocorreu em Cerro Largo, Capiovi, San Alberto e Puerto Rico, no seguimento da primeira cooperativa de crédito do Brasil e da América Latina, fundada por ele e um punhado de pequenos produtores familiares a 28 de Dezembro de 1902 em Linha Imperial, Nova Petrópolis. Atualmente esta cooperativa celebra em 2014, seus 112 anos de atividade ininterrupta, agora como “SICREDI PIONEIRA RS“.

Outra importante iniciativa inovadora do Pe. Amstad foi estimular a criação da Associação Gaúcha de Agricultores (Bauernverein), em 1900 na então Santa Catarina da Feliz, através da qual, como iniciativa ecumênica muito pioneira para aquela época, anualmente se organizava uma Semana Rural, debatendo temas de desafios do desenvolvimento rural com especialistas, e organizada por padres, pastores e dirigentes católicos e evangélicos.

Ainda em 1912 funda a “Sociedade União Popular” (Volksverein), enquanto os evangélicos preferiram continuar a apoiar a Associação, agora transformada em Sindicato. Tornou-se o Secretário desta Sociedade e como cavaleiro itinerante, passando a percorrer vilas e cidades do Rio Grande do Sul.

O Pioneiro Amstad tornou-se o Secretário da União Popular que o obrigou a viajar muito, formando 13 novas cooperativas de crédito no Estado e percorrendo, segundo ele, no lombo da mula mais de 80 mil km em sua montaria (ou 180 mil, conforme outros…). Nos 52 anos de Brasil, teve 28 anos de paróquia, 10 anos de Secretário Geral da Sociedade União Popular, em cujo período acompanhou a criação e consolidação da Cooperativa União Serro Azul, centenária em 2013, e 14 anos de escritor. E quando com saúde, na sua vida ativa realizou 2.297 visitas a paróquias e capelas, com uma média de 60 visitas por ano, mostrando o muito do trabalho que conseguia realizar. Ajudou igualmente a fundar o Banco Agrícola Mercantil, voltado prioritariamente para o favorecimento dos pequenos e médios produtores rurais, banco que alguns anos depois foi fundido numa outra entidade financeira e com prioridades diferentes. Em 1919 sofreu um grave acidente de montaria, que o afetou na coluna e amassou um pé, obrigando-o, a partir de 1923, durante 18 anos até a morte, a viver em cadeira de rodas. Embora confinado na Vila Gonzaga, mesmo assim não parou: Colaborou com vários periódicos alemães, promoveu muitas publicações estatísticas, encadernou livros, desenhou mapas, elaborou e divulgou um livro sobre o Centenário da Imigração Alemã no Brasil em 1924, promoveu a construção de um asilo, depois ampliado para o Hospital de São Sebastião do Caí e a compra do então seminário menor de Pareci Novo. Como cadeirante, escrevia por ano de 5 a 6 centenas de cartas para amigos do anterior trabalho.

Teve excelentes sucessores na Secretaria e Coordenação da Sociedade União Popular, nas pessoas dos Padres Max Von Lassbergh e João Evangelista Rick. Ambos souberam dar continuidade à obra da Sociedade, acompanhando a fundação de cooperativas, de outras associações e de modo especial, projetos de colonização em Cerro Largo, Santo Cristo e depois Itapiranga (antes Porto Novo) no extremo oeste de Santa Catarina, promovendo a construção de escolas paroquiais e até de hospitais nestes projetos de colonização. Pelo mesmo estímulo da Sociedade União Popular, os sucessores de Amstad contribuíram diretamente para a fundação do Leprosário de Itapuã e o abrigo para menores de famílias leprosas em Belém Velho.

Pois, este homem original, criativo e pioneiro, deixou como um dos seus legados importantes para a sociedade, a criação e o acompanhamento das cooperativas de crédito, que em 1966 tinham em torno de 66 cooperativas espalhadas pelo Estado e sendo um oportuno auxílio na área do crédito e financiamento de milhares de pequenos produtores familiares e outros, viabilizando sua permanecia digna no campo. Este modelo nas décadas de 60 e 70, quase foi à falência devido à uma míope política pública econômico-financeira de fins daquele período, quando a pretexto de “medidas de saneamento do mercado financeiro”, se inviabilizou a continuidade de umas 60 destas cooperativas, cancelando-as.

Felizmente com muita teimosia e perseverança umas oito destas cooperativas sobreviveram. A partir de 1980, com a assessoria de Mário Kruel Guimarães, cooperativista e recém aposentado da Carteira de Crédito Agrícola do Banco do Brasil, partiu-se para uma reformulação e renovação do crédito cooperativado, criando o Sistema COCECRER, que alguns anos depois passou para o atual SISTEMA SICREDI e se beneficiou com uma lenta e progressiva expansão e desenvolvimento autônomo.

Pois hoje, em 2014, o campo de atuação do SISTEMA SICREDI continua florescente. Transpondo os limites do Estado Natal, já se implantou em outros onze Estados, ou seja, no total: RS, SC, PR, SP, RJ, MS, MT, TO, PA, RO e GO. Nestes 11 Estados conta com 100 cooperativas, 1.258 postos de atendimento ao cooperado –PACS (em média 13 postos por cooperativa) e beneficiando já a 2,5 milhões de cooperados. Conta ainda com estruturas cooperativas de segundo e terceiro graus, tais como 4 Cooperativas Centrais (formada por cooperativas de base ou locais), uma Confederação (formada por Centrais, Federações e cooperativas de base) e uma Fundação.

No que respeita à Fundação, ela foi criada para prover às necessidades de pesquisa do Sistema e para prover de estrutura e recursos o simpático Programa A UNIÃO FAZ A VIDA. Este programa consiste na introdução de lições de cooperativa, não em horas específicas, mas permeadas nas diversas disciplinas do Ensino Fundamental, nascido em 1993 a pedido do então Presidente Ademar Schardong, e elaborado por um grupo de professores de cooperativismo e economia solidária na Unisinos. No decorrer de sua elaboração pela equipe da Universidade, estes sempre mantiveram estreita interação e consulta com o Sistema Sicredi. Este Programa, quando finalizado, mediante negociação de parcerias do SISTEMA SICREDI com entidades e lideranças do Município local – prefeitura, sindicatos, cooperativas locais, associações, etc., foi implantado em 1995 no Município Piloto de Santo Cristo, a título de aplicação do teste e possíveis correções. Foi lançado oficialmente em 1997 em 7 Municìpios do Estado e depois, anos seguidos em outros tantos Municípios do nosso e de outros dois Estados, tendo já beneficiando a mais de 165.000 crianças e pré-adolescentes do Ensino Fundamental nestes 16 anos de funcionamento. Por razões de diminuição drástica no quadro da sua equipe de professores e estudiosos na área, a UNISINOS, em época de crise financeira, saiu do Programa em 2004. Porém, atividade que não teve interrupção, foi a continuidade da oferta dos Cursos de Especialização em Cooperativismo, que em 2013 ofereceu sua 32 oferta de turma, como CESCOOP XXXII.

Particularizando agora com o Estado Berço do cooperativismo de crédito e de suas várias iniciativas, temos no RS 45 cooperativas e com 610 pontos de atendimento – PAs, o que daria uma média de 13 postos por cooperativa e 1.967 cooperados por PA. Considerando que há no Estado 1,2 milhões de associados do SISTEMA SICREDI. Suas cooperativas estão presentes em 447 (90%) dos 497 Municípios do Estado, o que representa um bom indicador de desenvolvimento regional e local, com melhor qualidade de vida. Os Municípios com presença de cooperativa em seu território, apresentam um Índice de Desenvolvimento Humano – IDH, geralmente superior ao dos Municípios sem cooperativas, ou seja, 0,701 contra 0.666. A Região Sul do Brasil, apresenta os melhores índices tanto num como noutro caso, ou seja, 0,789 contra 0,763 (Fonte: IBGE E OCB, 2005). O SISTEMA foi considerado recentemente como a instituição financeira com a maior rede de atendimento do Estado. Administra em 2014 ativos totais no valor de R$ 38,8 bilhões e um patrimônio líquido de 5,3 bilhões.

Preocupado em manter a autenticidade doutrinária e operacional cooperativa ao longo de sua expansão, o SISTEMA SICREDI, introduziu nos estatutos a exigência da ocorrência de pré-assembleias anuais, repetindo nos temas da pauta os mesmos que devem ser discutidos e aprovados (ou sancionados) na Assembleia Geral Final da Cooperativa em cada uma das 100 cooperativas do País, realizando-as em cada PA. Tais pré-assembleias ocorrem em março e abril de cada ano e sempre com a presença de membros da Diretoria da Cooperativa. Neste ano espera-se no SICREDI RS/SC, a presença de cerca de 250.000 pessoas nestes eventos de pré-assembleias, o que representa aproximadamente 20% da totalidade dos associados, sem dúvida, um notável progresso em termos de participação e protagonismo.

Como reforço final sobre a relevância da Herança Social de Amstad, cabe relembrar o argumento da Doutora Elinor Ostrom, da Universidade de Idiana e Prêmio Nobel de Economia em 2009, precisamente graças à sua vivência com entidades associativas – os “commons”, defende a seguinte tese:

  1. A Cooperativa é uma entidade mais econômica e mais fácil para juntar as pessoas, buscando a solução de problemas (O Estado é mais caro)
  2. A Cooperativa de produção devolve os resultados a quem produz (Não a quem tem capital)
  3. A Cooperativa é instrumento de desenvolvimento sustentável das comunidades

Para os dirigentes da Diretoria do SISTEMA SICREDI, falando da relevância pedagógica das pré-assembleias entendem que: “Este é um exercício de transparência que estamos mostrando à sociedade, cumprindo e praticando com os princípios fundamentais do cooperativismo. Este é o momento de agradecer aos associados pela confiança depositada na sua cooperativa e prestar contas das atividades do ano passado e deliberar os assuntos de 2014. Esta postura reafirma e fortalece a relação da cooperativa com os associados e as comunidades”, explica Gerson Seefeld, diretor executivo da Central Sicredi Sul.

Por Padre José Odelso Schneider – Unisinos

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