Dinheiro na Crise, por Chael Mazza e Elvira Cruvinel

O ano de 2020 tem início com uma crise de proporções mundiais, ocasionada pela pandemia do Covid-19, ainda sem horizonte para seu fim. O consequente declínio econômico-financeiro, assim como o vírus, se apresenta com grandes impactos, ainda não totalmente dimensionados. Eventos dessa magnitude vêm e vão, até com certa regularidade; mas, a verdade é que ninguém consegue prever antes que aconteça. Estar preparado é a chave para o sucesso.

Independentemente da causa, ensinamentos de recessões passadas podem ser úteis nesse momento. Os ciclos econômicos sempre trazem períodos de grandes e rápidas perdas, seguidas de lentas recuperações, e a história nos mostra que, eventualmente, tudo volta ao normal. Destaque deve ser dado, então, para a importância de as pessoas se debruçarem mais atentamente sobre os benefícios em relação à existência de uma vida financeira saudável.

É exatamente nos momentos de crise que a educação financeira tem mais valor.

Crises financeiras, de proporções mundiais, possuem comportamentos bem similares. No geral, ocorrem, em média, uma vez a cada dez anos. Além disso, sempre há um período de pânico e caos com quedas astronômicas nos preços, normalmente em torno de 30% a 50%, seguidas de uma recuperação relativamente rápida. Em média, são necessários oito a doze meses para que as bolsas de valores voltem para um patamar próximo ao do momento pré-crise. O retorno do nível de emprego vai demorar mais ou menos tempo, a depender de certas características de cada país. O final dessa novela é um período de um a dois anos de recessão econômica que, normalmente, segue como consequência.

Sendo assim, o que fazer diante desse cenário, como sobreviver ou como aproveitar oportunidades? E, ainda do ponto de vista individual, como deveríamos nos preparar para próximas crises que certamente ainda vivenciaremos? Classificando, de modo caricato, as pessoas em dois grupos – os que “pagam juros” e os que “recebem juros” –, podemos descrever duas experiências opostas, mas, ao final, a oportunidade de aprendizagem é grande para todos. Talvez, para a parcela da população que “paga juros”, essa seja uma das grandes oportunidades da crise: aprender, mesmo que na dor, sobre a importância de viver com equilíbrio financeiro. Para a outra parcela, que “recebe juros”, ainda muito menor do que a primeira, o grande ganho será aprender, na crise que vira oportunidade, como incrementar suas finanças.

O que estamos dizendo é que a mesma crise tem impactos diametralmente opostos para esses dois grupos de pessoas. Dois lados de uma mesma moeda, literalmente falando. Conhecer esses dois lados pode nos trazer boas reflexões e propostas de ação.

O que caracteriza o lado da moeda dos que pagam juros? Normalmente endividados, se já não estavam em boa situação financeira, passam para uma situação de realmente ter que se reinventar, de modo a não aprofundar “sua crise pessoal” ou mesmo para sobreviver nesse período. Algumas características básicas das pessoas desse lado da moeda:

• Gastam mais do que ganham.
• Trabalham para ganhar dinheiro.
• Possuem medo ou receio de olhar suas finanças.
• Não destinam nada para investimentos.
• Compram parcelado.
• Possuem vários cartões de crédito.
• Estão sempre pagando juros de cartão de crédito, carro e imóvel.
• Não possuem metas financeiras definidas.
• Não possuem reserva financeira para emergências.
• Não possuem um plano B caso percam o emprego.
• Não estudam educação financeira.

Em contrapartida, o que podemos aprender com aqueles do lado da moeda dos que recebem juros? Comumente, estão preparados para as adversidades e, mais ainda, para tirar proveito dos movimentos financeiros decorrentes da crise. Possuem um bom nível de educação financeira e um bom relacionamento com seu dinheiro. Podemos dizer que:

• Gastam menos do que ganham.
• Fazem o dinheiro trabalhar para eles.
• Possuem controle de suas receitas e despesas.
• Investem regularmente uma parte fixa de seus salários
• Compram à vista.
• Possuem, quando muito, um cartão de crédito.
• Estão sempre recebendo juros de diferentes fontes de renda.
• Sabem exatamente quanto querem ter e quanto tempo vai levar.
• Possuem reserva financeira para emergências.
• Possuem plano B, C e D caso percam o emprego.
• Estudam muito educação financeira e investimentos.

A verdade é que a educação financeira é à prova de qualquer crise.

Em qualquer momento, podem existir boas oportunidades. No fim, é tudo uma questão de prioridades. Estudar educação financeira e aprender como investir com tranquilidade é algo para a vida toda. A chave aqui é aprender os bons hábitos daqueles que estão ganhando juros, para aprender não apenas a surfar com segurança nas ondas das crises, mas também para navegar nos mares de calmaria que vêm na sequência.

De que lado da moeda você está? Quer mudar de lado?

Aguarde nosso próximo artigo sobre o assunto.

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Chael é doutor em Administração pela UNB e criador do @curtafinancas no instagram. Elvira é doutora em Finanças Sustentáveis pela FGV e possui ampla experiência com educação financeira. O conteúdo do artigo é de inteira responsabilidade dos autores, não representando posicionamento da instituição em que trabalham.

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