Sucessão da agricultura familiar. Como uma Cooperativa de Crédito está ajudando a tornar a sucessão do campo uma realidade na Serra Gaúcha, por Alceu Ruppenthal Meinen e Carlos Martinho Berres

Para Almeida (2016), a sucessão

[…] é como os ciclos das árvores, no qual as folhas e frutos desgastados caem e só assim a planta tem energia para o nascimento e crescimento de novas folhas e frutos, e estes podem ser mais viçosos do que os da estação anterior.
A produção brasileira de alimentos é mundialmente conhecida e valorizada. No entanto, os superávits da nossa balança comercial, em grande parte baseada em grãos, não representam o perfil da maioria das propriedades rurais do país: as pequenas propriedades rurais e familiares.

A produção de alimentos no Brasil é, de fato, em sua maior parte proveniente da agricultura familiar. Ela fornece, por exemplo, 87% da produção da mandioca, 70% do feijão, 58% do leite, 59% da carne suína. Se é verdade que a produção da agricultura empresarial ou agronegócio chama a atenção por recordes de safra e exportação anuais, é também verdade que ela não abastece nosso mercado interno. A produção de alimentos que garante nossa segurança alimentar e nutricional vem, majoritariamente, das pequenas propriedades rurais.

O número de jovens com idade entre 15 e 29 anos que deixou o campo para viver na cidade caiu na última década, de acordo com o mais recente Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), realizado em 2010. No entanto, mesmo em um ritmo mais lento, o êxodo ainda é preocupante. No ano 2000, o Brasil contava com 8,6 milhões de jovens vivendo na zona rural. Em 2010, a quantidade caiu para 7,9 milhões.

A fuga dos jovens preocupa os pequenos agricultores. “Sem sucessão, a diversidade de produção de alimentos da agricultura familiar vai ficar comprometida”, para a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). Porém, segundo o economista e professor Eugênio Stefanelo, hoje a agricultura familiar oferece boas perspectivas e trabalho bem remunerado para quem é eficiente: “Eu já vi muitos negócios familiares crescerem após adoção de tecnologia e a implantação de novas ideias trazidas pelos jovens. É possível ter um alto valor agregado. ”

A população rural do Rio Grande do Sul em 2010 é 37% menor do que em 1980, de acordo com dados do último censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE). Há 30 anos, o número de pessoas morando no campo no estado era de 2,5 milhões, enquanto em 2010, esse número caiu para 1,6 milhões. “A grande dificuldade é da mão de obra de jovens ficarem na área rural”, explica o coordenador da agência do IBGE de Passo Fundo, Jorge Bilhar.

Quem acompanha de perto essa situação do interior é a Emater que afirma que mais de 30% das famílias não têm sucessor e, em média, 60% das famílias não discutiram o assunto.

Neste ponto o tema sucessão, quando se fala em manter os jovens no campo é de extrema importância, exigindo diálogo entre pais e filhos, estabelecendo um plano de trabalho e de negócio.

Paralelo ao êxodo rural contínuo, no entanto, pode-se observar um movimento – ainda que tímido e discreto – de famílias que migram para o campo, valorizando aquilo que muitos jovens filhos de agricultores querem se afastar: tranquilidade e contato com a natureza.

São pessoas que buscam uma alternativa de vida e de trabalho que possa combinar qualidade de vida, valorização da natureza e compromisso ou engajamento político com causas reais que possam mudar o estado das coisas – relata o doutor em Sociologia, Sergio Schneider, professor do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Rural da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Neste contexto entra o Sistema Sicredi, onde a falta de crédito de rural motivou o surgimento das Cooperativas de Crédito em 1902 em Nova Petrópolis, no estado do Rio Grande do Sul, no Sul do Brasil. O Padre Theodor Amstad e 19 lideranças rurais fundaram a primeira Cooperativa de crédito da América Latina, hoje a Sicredi Pioneira RS, viabilizando a execução de planos dos produtores rurais, possibilitando a partir de uma rede de apoio mútuo, promover o desenvolvimento local e melhorando a qualidade de vida dos associados.

Aliado a isto, o Sicredi é hoje no Brasil um dos maiores repassadores de crédito de investimentos para a agricultura familiar do País. Isto dá-se devido aos valores e propósito do Cooperativismo estar no seu DNA, visando sempre a perenidade da comunidade e consequentemente do seu negócio.

Assim com o propósito de desenvolver as comunidades, a Sicredi Pioneira RS desenvolveu um programa de empreendedorismo voltado para sucessão familiar rural, objetivando a manutenção dos jovens no campo, que vem sendo marcado pelo êxodo e envelhecimento das pessoas que ainda ficam no interior.

A Primeira Turma do Programa teve 12 famílias participantes, que tiveram 9 Módulos, concluindo o mesmo em 2019. Os módulos foram ministrados e sob orientação de Glauco Schultz, professor de pós-graduação em agronegócio e desenvolvimento rural na UFRGS, nos quais discutiram os pontos fortes, pontos fracos, oportunidades e ameaças do agronegócio familiar, tendências dos mercados de alimentos, informações sobre empreendedorismo, gestão de custos de produção, gestão de qualidade, relacionamento interpessoal, comunicação na família, entre outros temas de relevância para o grupo.

“A cooperativa desenvolveu esse programa pois tem percebido o êxodo rural, a descontinuidade das atividades nas propriedades rurais e o envelhecimento dos associados que atuam nesta área”, destaca Daniel Hillebrand, gerente de relacionamento da Sicredi Pioneira RS, ao reforçar que o objetivo é dar subsídios para os jovens terem interesse em se manter na atividade rural e que possam, a partir dela, se realizarem pessoal e profissionalmente.

E nesse intuito, o Programa vem colhendo bons frutos, como é o caso da Família Neumann, de Linha Imperial, interior de Nova Petrópolis. Gerson Henrique Neumann e sua esposa Joana Beatris Kreisig Neumann, tem somente uma filha, Mariane Neumann de 16 anos. Estes começaram a participar do Programa e nos primeiros módulos relataram que iriam desistir da atividade leiteira, dado que a sua filha não demonstrava o interesse em prosseguir com a atividade, tendo mais interesse em ir trabalhar na cidade.

Diante deste cenário, iniciou-se um trabalho junto a família, mostrando prós e contras, trazendo temas relevantes, e sempre com a participação de todas as pessoas que compõe aquele grupo familiar (pai, mãe, filhos, noras, genros,…).

A partir da análise em conjunto, tivemos uma grande reflexão, que jamais devemos desistir de um projeto que foi elaborado justamente para combater e tratar estes pontos, Mariane ao longo do tempo acabou percebendo que tinha em suas mãos uma excelente oportunidade de trabalhar na sua própria empresa, sendo dona, não necessitando se afastar de sua família para buscar oportunidades fora. Assim a mesma tomou a decisão de continuar o legado de sua família e trouxe a feliz notícia. Tal decisão se demonstrará que Mariane poderá ter uma condição muito melhor e mais rentável, sem contar na sua qualidade de vida. Com isso, no decorrer do Programa, com muitas análises, projeções, capacitações e sempre com o intuito de melhorar a qualidade, produtividade, renda, a família Neumann ainda investiu em um moderníssimo robô de ordenha conectado a outros sistemas que permite a automação de toda a produção de leite, desde a alimentação dos animais, higienização do ubre, ordenha e gerenciamento da propriedade. Investimento pioneiro em toda região e com pouquíssimos exemplos em todo estado.

E dessa forma o Programa vem proporcionando aos participantes e a toda Comunidade bons frutos, chegando em 2020 já com a Segunda Turma prestes a concluir e a Terceira Turma tendo iniciado, com perspectiva de iniciar mais duas Turmas ainda este ano, chegando a 5 Turmas desse importante modelo de gestão que visa promover a Sucessão Rural nas propriedades rurais dos 21 Municípios de atuação da Sicredi Pioneira RS.

Assim como qualquer empresa que tem o intuito de ter a perpetuidade, a agricultura familiar precisa também fazer seus sucessores. E este programa desenvolvido pela Cooperativa Pioneira junto a sua comunidade, nós dá a certeza que teremos novas gerações de agricultores familiares produzindo o alimento para o Brasil e o Mundo.

REFERÊNCIAS

ALMEIDA, E. A sucessão como ela é: de sentimento a jogos políticos nas organizações. São Paulo: Benvirá, 2016.

G1 – CAMPO E LAVOURA/RS. Em 30 anos população rural do RS registra queda de 37% diz IBGE. Disponível em: http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/campo-e-lavoura/noticia/2017/03/em-30-anos-populacao-rural-do-rs-registra-queda-37-diz-ibge.html> Acesso em: 25 de Dezembro de 2017.

JORNAL GAZETA DO POVO. Falta de Jovens no Campo Compromete Futura da Agricultura Familiar. Disponível em:
ttp://www.gazetadopovo.com.br/agronegocio/agricultura/falta-de-jovens-no-campo-compromete-futuro-da-agricultura-familiar-7h7mzqu3t180bq5w0v523hb53. Acesso em: 25 de Dezembro de 2017.

ZERO HORA. Neorurais no RS, jovens tem optado por trabalhar e morar no campo. Disponível em: < https://gauchazh.clicrbs.com.br/economia/campo-e-lavoura/noticia/2016/12/neorurais-no-rs-jovens-tem-optado-por-trabalhar-e-morar-no-campo-8875985.html> Acesso em: 25 de Dezembro de 2017.

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