Open Banking: ameaça ou oportunidade?

Conheça a opinião dos dois representantes do cooperativismo brasileiro no conselho que debate o assunto.

Grandes transformações tecnológicas envolvendo o sistema financeiro aconteceram no último ano. Primeiro, foi a chegada do Pix, que deu a todos nós a possibilidade de transferir dinheiro a qualquer hora e momento, na maioria das vezes sem precisar pagar tarifa alguma por isso. O próximo passo a ser dado é a implementação do open banking — tecnologia que permite ao correntista de uma instituição financeira (seja ele pessoa física ou jurídica) autorizar o compartilhamento de seus dados (pessoais e transacionais) com outras instituições financeiras. Dessa forma, ele poderá receber e aceitar propostas de produtos e serviços de instituições com as quais não tem vínculo.

Mas, afinal, quais são as vantagens do open banking para o cooperativismo financeiro? Quem nos responde essa pergunta são os dois titulares do cooperativismo no Conselho Deliberativo do Open Banking: Cesar Bochi, diretor executivo de Administração e Finanças do Sicredi, e Márcio Alexandre, superintendente de Tecnologia e Governança do Sicoob.

O open banking chegou com o status de transformação digital no sistema financeiro. Na opinião dos senhores, qual será o impacto dele na vida das pessoas e das instituições financeiras?

Márcio Alexandre O open banking é a iniciativa de maior impacto sobre o Sistema Financeiro Nacional dos últimos anos. Enquanto o Pix revolucionou a indústria de meios de pagamento, o open banking abrange os principais produtos das instituições financeiras. Sem dúvida, o ponto mais positivo é o reposicionamento do cliente como autoridade máxima para decidir sobre quem pode ter acesso às suas informações.

A abertura dos dados financeiros dos clientes entre as instituições reguladas pelo Banco Central promete colocar em condições de igualdade novos entrantes e incumbentes, de forma que todos tenham as mesmas informações de seus clientes para oferecer produtos a preços mais justos, ou seja, o open banking promete combater a chamada assimetria de informação existente em nosso sistema financeiro. Por isso, os benefícios esperados são enormes, especialmente os ligados à inovação e à criação de ofertas e produtos sob medida; por outro lado, mesmo diante da adoção dos mais rigorosos padrões internacionais de segurança, a preocupação com abusos e fraudes continua sendo um grande desafio para essas instituições.

César Bochi: Acreditamos que o open banking trará benefícios aos consumidores a partir de uma maior competitividade e transparência, gerando mais equilíbrio entre as instituições financeiras. Com essa tecnologia — sempre mediante a autorização —, as cooperativas financeiras poderão ter acesso às informações dos consumidores e disponibilizar soluções mais adequadas a capa perfil.

Qual será o impacto dessa nova tecnologia nas cooperativas de crédito brasileiras?

M.A.: As cooperativas financeiras, que normalmente já praticam preços mais justos e conhecem bem a necessidade de seus cooperados, agora podem ter uma visão mais ampla de sua vida financeira e, dessa forma, promover o aumento do engajamento do cooperado com a sua cooperativa. Por outro lado, os cooperados passam a estar mais suscetíveis ao assédio do mercado e podem ter suas margens ainda mais pressionadas.

C.B.: Acredito que o open banking trará novas oportunidades para que as pessoas conheçam os benefícios que as cooperativas de crédito oferecem, pois irá proporcionar um ambiente com mais informação, transparência e liberdade para escolha. Vai haver mais facilidade para quem ainda não é associado a uma cooperativa de crédito conhecer as vantagens do modelo. Assim, o open banking poderá fortalecer ainda mais o cooperativismo de crédito no Brasil, gerando mais inclusão financeira e contribuindo com o desenvolvimento econômico e social das comunidades.

Quais são os desafios de implementação do open banking dentro do ambiente cooperativista?

M.A.: Apenas as instituições classificadas como S1 e S2 são obrigadas a participar de todas as fases do open banking, ou seja, as cooperativas, de forma geral, são obrigadas a participar apenas da fase 3, que trata da iniciação de pagamento. Ainda assim, para aproveitar todas as oportunidades que o open banking pode trazer para o nosso modelo de negócio, pelo princípio da reciprocidade, elas precisam se adaptar e participar de forma voluntária de todas as outras fases.

Os esforços necessários para as cooperativas participarem do open banking em sua totalidade são enormes. Somente poderemos aproveitar os benefícios advindos da chegada do open banking se, além de nos prepararmos para compartilhar os dados de nossos cooperados, tivermos fôlego para criar iniciativas para se beneficiar das informações de seus cooperados em outras instituições.

C.B.: Acreditamos que o primeiro grande desafio é, além da tecnologia: criar uma cultura de inovação capaz de abarcar o open banking. É um processo desafiador para todas as instituições financeiras, pois mexe bastante na forma de gestão das informações, mas o esforço terá como recompensa um universo de novas possibilidades.

Quais oportunidades de negócio serão criadas pelo open banking para as cooperativas?

M.A.: As cooperativas, de forma geral, praticam preços mais justos e podem se aproveitar dos dados de movimentação de seus cooperados em outras instituições para reforçar o seu valor. Elas também poderão oferecer condições personalizadas para que seus cooperados possam substituir os produtos adquiridos em outras instituições para os existentes em sua cooperativa.

C.B.: O open banking tem entre seus objetivos a busca por mais competitividade no Sistema Financeiro Nacional, por meio da eliminação da assimetria de informações entre as instituições. Logo, a partir de um sistema financeiro mais transparente, em que o consumidor possui maior domínio sobre suas informações e fácil acesso à informação sobre produtos e serviços praticados no mercado, espera-se que esse movimento contribua para a redução da concentração bancária no Brasil, pois, entre outros aspectos, vai haver maior visibilidade das condições praticadas pelas instituições.

Mesmo existindo desafios, o open banking trará novas oportunidades para que as pessoas conheçam os benefícios que as cooperativas de crédito oferecem, pois a perspectiva é de um ambiente com mais informação, transparência e liberdade para a escolha. Dessa forma, podemos fortalecer ainda mais o cooperativismo de crédito no Brasil, gerando mais inclusão financeira e contribuindo com o desenvolvimento econômico e social das comunidades.

Atualmente, das 834 instituições registradas no ecossistema open banking, mais de 600 são cooperativas. A que os senhores creditam tamanha adesão das cooperativas ao novo sistema?

M.A.: A definição da obrigatoriedade de participação das instituições em ao menos uma das fases do open banking foi estabelecida pelo Comunicado 36.480, de 4/12/2020. A participação voluntária das cooperativas relacionadas nesse comunicado se limita às fases I, II e IV. Todas as cooperativas relacionadas no documento são obrigadas a se cadastrar desde o início no diretório do open banking, bem como participam do rateio das despesas da estrutura inicial estabelecida pelo Banco Central.

Ainda que a participação seja obrigatória basicamente para a fase III — que permitirá que os consumidores tenham acesso a serviços de pagamento fora do ambiente do banco, e não apenas nos canais das instituições financeiras com as quais tenham relacionamento —, o que se observa é uma grande adesão voluntária das cooperativas, visto que o open banking se apresenta muito mais como uma oportunidade do que como uma ameaça para essas instituições.

O fato de uma grande quantidade de cooperativas serem detentoras de contas demonstra o nível de sofisticação e comprometimento em atender aos anseios de sua comunidade e, em sua grande maioria, sem deixar a desejar em relação aos serviços prestados pelas instituições financeiras tradicionais.

C.B.: As cooperativas de crédito brasileiras estão muito engajadas e atuantes no processo de implementação do ambiente de open banking do país. Isso acontece em função da consciência sobre as possibilidades que essa novidade gera, tendo em conta a maior facilidade de conexão entre diferentes soluções, o que vai qualificar ainda mais seus portfólios, ainda com a vantagem de economia em custos de desenvolvimento.

Os senhores acham que o open banking vai tornar mais equânime o mercado entre as instituições financeiras e as cooperativas? Por quê?

M.A.: As cooperativas, por conhecerem bem seus cooperados, conseguem praticar condições mais justas em seus produtos. Com a chegada do open banking, elas passam a ter mais condições de personalizar produtos, praticando valores mais justos para um universo maior de pessoas e, desta forma, ampliando o alcance dos benefícios do cooperativismo financeiro.

As grandes instituições possuem informações acumuladas de um universo maior de pessoas por mais tempo. Nesse sentido, as cooperativas têm mais a aproveitar dos benefícios do open banking do que essas instituições.

C.B.: De forma geral, o open banking integra a Agenda BC#, que visa, entre outros objetivos, tornar o Sistema Financeiro Nacional mais democrático e inclusivo. Essa realidade também se reflete no Sistema Nacional de Crédito Cooperativo, pois permitirá que se façam mais parcerias e, assim, se amplie a oferta de soluções com custos menores para isso.

O open banking tornará disponível uma enorme gama de informações financeiras de clientes bancários por meio do compartilhamento de informações entre instituições financeiras. Como as cooperativas podem aproveitar esses dados de forma inteligente?

M.A.: As cooperativas, de posse de seus desafios, passam a contar com um leque maior de informações e podem encontrar diferentes formas de resolvê-los. Um bom exemplo disso é a avaliação de risco de seus cooperados, que passa a poder ser redesenhada considerando novas variáveis, antes inexistentes ou mesmo menos confiáveis.

C.B.: As cooperativas de crédito já se diferenciam pelo alto nível de conhecimento que têm sobre seus associados, o que permite hoje, por exemplo, um alto grau de acerto na concessão de crédito. Com o open banking, esse conhecimento sobre os próprios associados será ampliado a partir do acesso, sempre mediante autorização, dos dados de eventuais relacionamentos com outras instituições financeiras, o que permitirá aprimorar ainda mais o atendimento e a oferta.

Há algum tempo o mercado vem mostrando a importância do trabalho orientado por dados e, a partir disso, de profissionais que tenham essa aptidão, e o open banking evidencia ainda mais isso. Inicialmente, é necessário que sejam avaliados esses pontos para que se possa aproveitar as oportunidades geradas, que são diversas. De forma geral, acredito que as cooperativas de crédito têm a possibilidade de conhecer ainda melhor seus associados, assim como clientes de instituições financeiras tradicionais podem ter acesso facilitado aos diferenciais das cooperativas, como taxas e condições atrativas. Também há muito espaço para as cooperativas realizarem parcerias que lhes permitam não só aprimorar as ofertas como também ampliar portfólio com investimentos e tempo de desenvolvimento provavelmente menores.

Quais são os desafios regulatórios de hoje para o open banking?

M.A.: Ao final da construção das fases previstas, o open banking brasileiro será possivelmente a mais ampla solução do tipo no mundo. E, provavelmente, também a feita em menor tempo. As instituições participantes são diversas em natureza, porte e estrutura, o que torna o desafio regulatório enorme.

Acomodar todas estas particularidades em tão pouco tempo tem sido um desafio que, até aqui, vem sendo bem conduzido pela estrutura inicial do open banking onde as cooperativas são representadas pela OCB com o mesmo poder de decisão que as grandes instituições financeiras.

C.B.: Acreditamos que, antes do lançamento do open banking, o ambiente regulatório foi adequadamente preparado. Os maiores desafios talvez passem mais pela adequação às mudanças do que às regras propriamente. A grande questão será garantir a privacidade dos dados de consumidores trocados pelas instituições financeiras. E, para dar as garantias legais a esse mercado em expansão, a criação da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), em agosto de 2018, foi fundamental. As regras da LGPD estabelecem procedimentos para o tratamento de dados pelas organizações e regulamentam processos que envolvam a utilização de informações pessoais, desde a maneira como são coletadas, classificação, utilização, processamento, armazenamento e compartilhamento, até a sua eliminação. Oferecem, assim, a base legal para que os dados dos titulares possam ser compartilhados entre instituições financeiras com segurança jurídica, e apresentam-se como um importante marco da evolução do ambiente regulatório do país. Consequentemente, a LGPD é um exemplo de medida favorável à implantação do open banking e outras inovações no SFN.

É claro que em um novo ambiente sempre vão surgir questões também novas, que acompanham o avanço da tecnologia e o comportamento das pessoas; então, é uma evolução constante, mas o Banco Central tem realizado os processos com muita profundidade e qualidade, o que dá segurança para as instituições e os consumidores.

Conheça o cronograma de implantação do open banking no Brasil

O processo de implementação do open banking foi dividido em quatro etapas e teve início em 30 de novembro do ano passado. A conclusão está prevista para outubro de 2021. Confira:

Primeira fase: Dados Públicos das Instituições Financeiras

Todas as instituições financeiras disponibilizam dados de forma padronizada. Nessa fase, devem ser disponibilizadas as informações de seus canais de atendimento e de seus produtos e serviços, incluindo as taxas e tarifas de cada item ofertado.

Para o cliente: podem surgir novas comparações de produtos e serviços financeiros, o que facilitará a escolha de produtos de acordo com as necessidades de cada cliente.

Segunda fase: Compartilhamento de dados do consumidor

O consumidor poderá compartilhar seus dados (cadastros, transações em conta, informações sobre cartões e operações de crédito) com as instituições de sua preferência. Tudo é feito por meio de consentimento, que pode ser revogado a qualquer momento.

Para o cliente: novos produtos e serviços, mais personalizados e acessíveis, podem ser acrescentados. Mas o compartilhamento de dados entre instituições só será possível por meio de consentimento.

Terceira fase: Os consumidores terão acesso a serviços financeiros como pagamentos e encaminhamento de propostas de crédito, sem a necessidade de acessar os canais das instituições financeiras com as quais eles já têm relacionamento.

Para o cliente: nesta fase, poderão ser enviadas e contratadas propostas de crédito de outras instituições de escolha do consumidor, que ganha autonomia no acesso a serviços financeiros.

Quarta fase: Inclusão de novos dados que poderão ser compartilhados, além de novos produtos e serviços, tais como contratação de operações de câmbio, investimentos, seguros e previdência privada.

Para o cliente: os consumidores passam a ter o controle do compartilhamento de uma gama maior de informações, o que pode levar à criação de produtos ainda mais personalizados para cada necessidade.

FONTE: Open Banking Brasil e somos.coop.br

Esta matéria foi escrita por Paula Andrade e está publicada na Edição 34 da revista Saber Cooperar.

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