Autonomia Cooperativa Versus Ambiente Sistêmico: Antagonismo?, parte final, por Ênio Meinen

“O todo é maior que a simples soma das suas partes”. (Aristóteles – princípio geral do holismo).

Um enlace sistêmico duradouro não admite verdades absolutas ou conclusões imutáveis e nem tolera ameaças ou (tentativas de) imposições de cima para baixo ou de baixo para cima. Nessa atmosfera, o segredo é compartilhar ideias e propostas, submetendo-as, sem reservas, ao processo dialético. E as soluções que decorrem dessa construção, justamente pelo seu caráter de não-perpetuidade, exigem constante revisitação, para que possam ser trazidas para a realidade de tempo em tempo.

Como se viu nas sucessivas abordagens, o campo da coabitação sistêmico-organizacional é complexo e sensível, e requer muitos cuidados. Uma possível seleção de mandamentos para a preservação do “matrimônio” intercooperativo não pode prescindir das seguintes condutas-chaves:

1) somar em vez de dividir;
2) escutar (muito mais que apenas ouvir) e, assim, abrir espaço para dialogar;
3) compreender que, ao lado dos benefícios individuais, há as obrigações coletivas;
4) ceder diante do interesse geral, uma vez que o todo é mais importante que a fração;
5) participar dos fóruns em que se discutem e se deliberam os assuntos de interesse comum;
6) assumir as responsabilidades, e não (tentar) transferi-las;
7) honrar as deliberações do conjunto, ainda que o desfecho seja individualmente adverso;
8) agir prontamente, adotando ou cobrando medidas corretivas, quando algum integrante se afastar das orientações corporativas;
9) confiar nas pessoas e nas entidades;
10) compartilhar no nível máximo as estruturas relativas a atividades comuns do arranjo sistêmico.

A falta de qualquer um desses atributos potencializa a infidelidade e torna a coalizão improvável!

Em síntese, a participação em sistema cooperativo, para que surta os efeitos almejados pelos membros e seja sustentável, requer compromissos e ações que conciliem direitos e obrigações entre as partes. É como já ensinava Alphonse Desjardins, introdutor do cooperativismo financeiro nas Américas: deve-se propugnar pelo “equilíbrio entre a integração e a autonomia”.

Só assim pode-se colher e preservar, individualmente, as prerrogativas da integração horizontal e vertical, medidas pelo acréscimo de eficiência operacional e pela maior visibilidade de mercado. Concorrem para isso, o ganho de escala, a redução de custos (especialmente pelo compartilhamento de atividades de apoio ou complementares ao negócio e otimização de investimentos), a expertise profissional, o portfólio diversificado e qualificado, a rede ampliada, a tecnologia de ponta e a marca forte.

E é nisso tudo que se revela, de fato, o trinômio liberdade, autonomia e independência da cooperativa singular. Com efeito, dispondo de portfólio amplo e de qualidade – impulsionador de receitas –, e (re)alocando eficazmente as atividades de retaguarda nas organizações de segundo e, sempre que possível, terceiro níveis – movimento redutor de despesas, contanto que, simultaneamente, sejam desfeitas as estruturas individuais –, as entidades de base têm “argumentos”, pessoas e tempo generosos para fazer relacionamento, conhecer melhor os associados, com eles intensificar os negócios e atrair novos membros.

Vale ressaltar que o grau de liberdade de cada cooperativa está na razão direta do nível de dominância que exerce sobre o mercado local e o seu público de interesse, o que lhe permite identificar particularidades e oportunidades e definir estratégias voltadas aos atuais e futuros cooperados. O vínculo sistêmico, reitere-se, não interfere adversamente nesse relacionamento. Pelo contrário, vem auxiliar essa aproximação.

Para alcançar um padrão de competitividade adequado – ou mesmo assegurar a sobrevivência – é imprescindível a reunião de forças no segmento, motivo pelo qual os arranjos legais e regulamentares (p. ex., Lei Complementar 130/09, começando pelo seu preâmbulo) tão explicitamente vêm endereçando incentivos em tal sentido.

Nessa perspectiva, interdependência (em vez de independência) é a palavra-chave, enquanto a hierarquia e o excesso de controle nas instâncias corporativas, assim como rebeldia na base são os maiores ofensores à força do conjunto.

Aliás, calha muito bem aqui a lição, genuinamente cooperativista, de Fernando Pessoa: “Somos todos anjos de uma só asa, e só podemos voar quando nos abraçamos uns aos outros”.

Em síntese, portanto (respondendo à indagação objeto do tema-título deste ensaio, dividido em três etapas): a intercooperação, assentada em processos adequadamente dimensionados à participação e a responsabilidade de todos e receptiva às singularidades, muito antes de ferir a liberdade das partes, impulsiona-a, garantindo a verdadeira autonomia do empreendimento cooperativo.

Artigo baseado em conteúdos sobre o tema dos livros Cooperativismo financeiro: virtudes e oportunidades. Ensaios sobre a perenidade do empreendimento cooperativo, e Cooperativismo financeiro na década de 2020: sem filtros!, do mesmo autor (Confebras, 2016 e 2020, respectivamente)

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