Seguro Rural: investimento necessário à saúde do agro

Incidência de eventos climáticos, atualização dos produtos securitários e subvenção governamental são fatores que têm levado mais agricultores a dividir com as seguradoras e resseguradoras os riscos de frustração na produção agropecuária. Nesse processo, as cooperativas têm papel especial à compreensão das regras e orientações sobre a contratação do produto ideal

Olhar para o céu e prever o que esperar do tempo no dia seguinte tem sido praticamente impossível aos agricultores. As tecnologias os ajudam na análise das variações climáticas, mas o seguro rural tem sido fundamental para melhor gestão dos riscos associados à produção.

Se até alguns anos a modalidade era vista por boa parte dos produtores como algo complementar à atividade agrícola (ou apenas uma etapa obrigatória aos que se enquadram no Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro)), hoje o seguro se torna instrumento essencial à saúde da empresa rural, diante das mudanças climáticas. Afinal, é um mecanismo para mitigar as perdas no campo e proteger a saúde financeira dos produtores rurais, ao transferir parte do risco da produção ao mercado securitário. “O seguro rural brasileiro vem passando por um processo de amadurecimento e consolidação, como vimos acontecer em outros países. Sua expansão é reflexo desta evolução, em que o produtor rural começa a enxergar o seguro como um mitigador de risco fundamental para a gestão do seu negócio e não mais como um custo”, opina Catia Rucco Rivelles, superintendente de Agronegócios da MAPFRE.

Mariucelio Santos Lima, gestor de Projetos de Assistência Técnica (Astec) da cooperativa Unicampo, reforça que o seguro, destacadamente o agrícola, funciona para o produtor como uma forma de garantir a manutenção da atividade rural e a procura tem crescido devido a alta nos sinistros. “Há três anos, tínhamos contratação de seguro a aproximadamente 150 mil hectares (ha); agora, passa dos 500 mil ha por ano.

As perdas sofridas nas últimas safras (especialmente na região sul do país) e a preocupação com a ocorrência de novos eventos climáticos na safra vindoura de inverno chamam atenção dos produtores e ampliam a demanda por contratações. Atuando em uma das regiões mais afetadas pela estiagem (norte e noroeste do Paraná, sul de Mato Grosso do Sul e de São Paulo), Lima recorda que no milho safrinha foram cerca de 95% de acionamento das propostas contratadas. Na soja, é possível que os acionamentos de seguro cheguem a 60%.

Essas perdas recentes, entretanto, também refletem, por exemplo, no aumento do valor do produto. “A gente precisa aumentar o número de contratação de seguro não só onde há mais incidência de sinistros, mas em todas as regiões, para a pulverização do seguro, cuja força está na mutualidade, para que suporte as perdas com a massa segurada”, comenta Felipe Caballero, sócio-fundador da assessoria Agro4U. “É preciso aculturar o produtor, para que enxergue o seguro como um investimento, não um custo. Para isso, o papel das cooperativas é fundamental”, afirma.

O seguro rural ainda tem muito a crescer. Cidmar Stoffel, sócio-fundador da assessoria Agro4U, sublinha que o Brasil tem cerca cinco milhões de propriedades rurais e uma diversificação de 400 culturas. Entretanto, os seguros agrícolas são contratados principalmente para grãos como trigo (cerca de 34% da área plantada segurada), soja (20%) e milho (15%). Já a contratação de seguro a máquinas e equipamentos agrícolas e mesmo criação de animais, por exemplo, ainda é menor.

Pedro Loyola, diretor do departamento de Gestão de Riscos do Mapa, comenta que a cobertura é muito relacionada ao crédito. Assim, o pequeno produtor do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) está 100% coberto pelo Proagro. Os produtores médios, nos cinco estados afetados com a seca, têm de 79% a 95% das operações com Proagro ou seguro. “É uma boa cobertura das operações”, considera. Já entre os grandes produtores, apenas metade deles contratam regularmente seguro.

Produtos atualizados podem atrair mais produtores

Compreendendo a evolução tecnológica no campo, as seguradoras têm atualizado seus produtos e considerado dados que representem com mais proximidade a realidade da produtividade de cada área segurada, fazendo que o produtor enxergue valor na contratação do seguro.

“Antes, o seguro não tinha boa cobertura, nem bom preço de saca de indenização e havia muitas travas, mas hoje tem sido modelado os tipos de seguro e o produtor sente mais respaldo, entendendo que é um produto que vai proteger a lavoura. Além disso, há os eventos climáticos, que estão cada vez mais constantes”, comenta Lima. “Hoje, tem produtor que diz: sem seguro não planto. Ele chega a plantar metade da área se não tiver seguro disponível”.

Caballero acredita que o mercado vem evoluindo bem com a expansão de seguradoras (atualmente são 15 empresas que oferecem esse tipo de produto), disponibilização de mais opções ao produtor, com melhores níveis de cobertura, combinado com incentivo governamental da subvenção, e inclusive a capacitação de mais peritos que o Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (Mapa) vem promovendo são também pontos que impulsionam o mercado. “Vejo que o momento é propício; estamos evoluindo na maturidade do seguro agrícola”, avalia.

“O processo de consolidação do seguro está associado a uma alta perspectiva de crescimento, em que o produtor busca por proteção. As seguradoras passam também por um processo de estruturação para se adequarem a este crescimento. Temos muitos desafios pela frente, como garantir a pulverização de risco para um melhor equilíbrio de carteira, garantir que as políticas públicas continuem incentivando a contratação do seguro por meio das subvenções e mais divulgação sobre os seguros rurais”, complementa Catia Rivelles.

Cooperativas são promotoras do desenvolvimento de cultura do seguro rural

Outro fator que pode estimular mais produtores a contratar seguro rural é o trabalho das cooperativas de viabilizar negociações diferenciadas aos cooperados, mas principalmente de levar informação ao produtor. “Atuei 19 anos à frente da carteira de seguro agrícola do Sicredi, e a gente percebe o quanto a cobertura de seguro dos produtores ainda é acometida pela desinformação; esse é um papel importante das cooperativas com seus cooperados”, frisa Caballero.

Diante da importância do seguro rural para seus cooperados, a Coopercitrus decidiu ter uma corretora própria. A organização entrou em operação no ano passado. “Como financiamos parte dos produtores, é importante também que eles tenham uma safra boa, sem perdas por problemas climáticos”, comenta Simonia Sabadin, diretora financeira da Coopercitrus.

“Contratamos cinco mil hectares no primeiro ano; mais de 200 apólices. Este ano, a gente espera trabalhar mais forte [em seguro]. O cooperado entende que é um bem necessário, porque em caso de sinistro, o prejuízo seria maior”. Segundo Simonia, ainda há diversas dúvidas dos agricultores sobre seguro rural que os profissionais da cooperativa buscam esclarecer. “Nosso objetivo é que o cooperado saiba o que está comprando e, em caso de sinistro, tenha o que comprou. Ser transparente faz diferença”, diz.

“As cooperativas são motores da contratação do seguro, tanto de produção quanto de crédito. Elas conseguem organizar a demanda, negociando a melhor cobertura, com prêmio acessível, pois têm preocupação de levar o melhor produto para seus associados, já que impacta inclusive nas suas operações. As revendas de insumos também podem fazer esse grande trabalho”, considera Pedro Loyola.

Dados auxiliam na análise de riscos

A análise de dados do campo permite avaliação mais precisa do percentual de risco da lavoura segurada. Ganham o produtor, as instituições financeiras e o mercado. Os dados revelam inclusive a janela ideal de plantio para cada região, com importante impacto no desenvolvimento e produtividade da lavoura, trazendo maior produção e rentabilidade ao produtor.

“Várias empresas trabalham de forma isolada, e também é papel das cooperativas congregar esse ecossistema, para ser mais eficiente no tratamento de dados, informações climáticas etc., dando condições para a seguradora precificar melhor [seus produtos voltados ao agro]”, acrescenta Stoffel.

A Embrapa realiza o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC), que baliza essa janela de disponibilização dos produtos securitários pelas seguradoras. Tem prioridade quem contrata mais cedo, e consegue plantar no período de menor risco, conforme o ZARC. Devido às perdas da safra anterior de inverno e previsão de risco de novos eventos seca neste ano, a janela de contratação de seguro foi mais curta, o prazo se encerrou ainda em janeiro.

Subvenção é auxílio necessário à expansão do seguro rural

O Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), auxílio financeiro do Governo Federal à contratação de seguro, é uma política de gestão de risco que abrange mais de 60 atividades e culturas nos seguimentos agrícola, pecuária, floresta, e aquícola. Em 2021, subvencionou próximo de R$ 1,2 bilhão, atendendo mais de 120 mil produtores, que contrataram 217 mil apólices, chegando a R$ 68 bilhões. Foram assegurados 14 milhões de hectares, o que representa 20% da área plantada, com maior concentração na região centro-sul, normalmente mais afetada por eventos climáticos com potencial de dano à produção. Ou seja, o seguro rural ainda tem muito a expandir não só em área, mas também em perfil de segurado, já que quase três quartos das apólices são de pequenos e médios produtores.

Segundo estimativas, perdas na soja podem chegar a 48% no Rio Grande do Sul e 41% no Paraná, estados mais afetados pela estiagem

Maria Flávia Tavares, economista e consultora em Agronegócios, entende que o seguro rural ainda não é massivamente usado também devido ao preço, o que faz da subvenção governamental importante recurso para que agricultores consigam pagar o prêmio do seguro. Entretanto, esse montante é determinado a cada ano no Plano Safra. “Aí começa um grande problema do Brasil, pois é um plano anual, ao contrário de outros países como os Estados Unidos, que são quatro anos. E, às vezes, essa previsão de valor acaba não sendo suficiente. O planejamento fica muito frágil. É para apagar o fogo mesmo”, opina.

Ainda, apesar da subvenção ser essencial para que muitos produtores possam contratar seguro da produção, Maria Flávia aponta que os recursos governamentais tendem a diminuir. A solução seria mais agricultores aderirem ao seguro, para reduzir o valor do produto.

A subvenção econômica concedida pelo Ministério da Agricultura pode ser pleiteada por pessoa física ou jurídica que cultive ou produza alguma das atividades ou culturas listadas no PSR. A partir deste ano, o percentual de subvenção ao prêmio é fixo em 40% para todas as culturas ou atividades, exceto a soja, que tem percentual fixo em 20%. A regra vale para qualquer tipo de produto e cobertura, conforme as regras do PSR.

O recurso obrigatório ao seguro rural neste ano é de R$ 990 milhões, e atende 10 milhões de hectares (em 2021, foram R$ 1,1 bi e 90% das apólices conseguiram subvenção). O Ministério espera conseguir um crédito suplementar de R$ 510 milhões, já que a demanda estimada é de R$ 1,5 bi em subvenção, para atender cerca de 15 milhões hectares em área segurada.

Apesar de não ser um investimento de valor considerável aos produtores, “a gente opta em fazer porque [em caso de sinistro] seria ainda pior a perda. Preferimos ter o seguro porque, caso contrário, seria muito difícil sobreviver na atividade como estão essas intempéries do clima”, declara a agricultora Regina Chiquetti, que investe a cada safra em seguro rural à produção de grãos na propriedade, no Paraná.

Eventos climáticos aumentam em 115% o valor das indenizações pagas aos produtores por frustração nas safras em 2021

A produção agrícola enfrentou eventos climáticos severos nas safras inverno e verão, como seca e geada, destacadamente na região centro-sul do Brasil, e excesso de chuvas na metade norte do país, que resultaram em perdas no campo.

Aos produtores segurados, foram pagos R$ 5,4 bilhões em indenizações de seguro rural em 2021, o que representa crescimento nominal de 115% no valor pago pelas companhias seguradoras habilitadas no Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural em relação a 2020, segundo dados divulgados pela Superintendência de Seguros Privados (Susep). Entretanto, para análise completa de sinistralidade de apólices indenizadas é necessário aguardar fechamento do ano safra 20/21 e da vigência das apólices contratadas no ano passado (dados que devem ser divulgados no segundo semestre de 2022).

Pedro Loyola, destaca ainda o recorde em contratação de seguro rural, mais de R$ 14 milhões. “Nunca se contratou tanto seguro e se pagou indenização”, diz.

Lavouras de milho segunda safra tiveram o maior volume de indenizações em 2021, pelos sinistros decorrentes de estiagem e geadas no Paraná, Mato Grosso do Sul e São Paulo, e das geadas no café, em Minas Gerais e São Paulo

Esse montante de sinistros afeta as novas contratações de seguro, tanto em valor do prêmio, quantidade de apólices por região e até o prazo de contratação. A janela de contratação para a próxima safra de inverno, por exemplo, já fechou. Com isso, muitos produtores com operações em áreas de maior risco climático precisam analisar bem os custos e riscos de produzir caso não tenha garantido seguro agrícola.

Por Nara Chiquetti – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 104

Fonte: mundocoop.com.br

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