Real digital busca aumentar a competitividade entre as instituições e promover a inclusão financeira

O mercado está em constante mudança. A cada dia, estamos ainda mais dependentes de ferramentas digitais. Quando o assunto é nossa vida financeira, tal realidade não é diferente. Segundo o Banco Central, apenas 3% de todo o dinheiro disponível no país circula em papel moeda. Do volume total que circula no país, quase R$9 trilhões são negociados de forma totalmente digital, diariamente.

Com uma agenda que busca modernizar o sistema financeiro e deixá-lo mais inclusivo, o BC atualmente desenvolve a sua própria moeda digital. Previsto para ser lançado de forma definitiva até 2024, o Real Digital deve ajudar a população em diversos aspectos. Mas afinal, quais são as suas características?

Uma nova realidade

Apesar de já realizarmos nossas transações de forma digital, a nova moeda não se trata do dinheiro digital que consultamos em nossos aplicativos. A moeda digital é uma nova modalidade que vem se popularizando no mundo todo. Saindo na frente, as Bahamas foram o primeiro país a lançar a sua própria, em outubro de 2020. Após isso, países como Estados Unidos e China seguiram pelo mesmo caminho, criando suas próprias moedas digitais.

As moedas digitais tampouco se encaixam na categoria de criptomoeda. Enquanto as criptomoedas tem o seu valor regido pela oferta e demanda, com alta volatilidade; as moedas digitais emitidas por órgãos federais são um ativo atrelado à política monetária de cada país, estando sujeito a variáveis como o mercado internacional e a inflação interna.

Marcio Nami, economista comportamental

“A moeda digital, ou CBDC (Central Bank Digital Currency), como o próprio nome já diz, é a moeda digital do Banco Central, e suas variações são consoantes às políticas monetárias e econômicas, que impactam no meio digital da mesma forma que no mercado monetário tradicional”, explica o Economista Comportamental, Marcio Nami.

Ao contrário dos valores que consultamos em nossos bancos, o Real Digital não poderá ser convertido em cédulas, uma vez que a nova moeda terá códigos gerados pelo próprio BC. Com esse sistema, será possível realizar atividades cotidianas, assim como na moeda atual. Ou seja, o consumidor poderá realizar compras, pagamentos, investimentos e outros.

Inclusão financeira

Uma das principais vantagens do Real Digital será a inclusão da população desbancarizada, que em 2021 somava 34 milhões de pessoas, segundo o Instituto Locomotiva. Com a nova moeda, caminhos serão encurtados, e o poder sobre o dinheiro estará, ainda mais, nas mãos de cada indivíduo. Para Nami, tal característica é fundamental para que o atual cenário seja modificado, com mais pessoas entrando no moderno sistema que o Brasil já possui.

“Os meios digitais atuais dependem diretamente do acesso a uma instituição financeira ou operadora. A moeda digital tem potencial de ser um fim em si mesma, garantindo ao usuário sua carteira digital sem, eventualmente, a necessidade de intermediação, o que aumenta em muito a capilaridade e acesso”, explica.

Neste contexto, o Real Digital possibilitará uma grande mudança no cenário econômico brasileiro. Com mais pessoas dentro do sistema, a circulação de valores será ainda maior e mais prática, para as pessoas e para as instituições. Além disso, outro elemento traz uma nova camada para o Real Digital: a segurança.

“A tecnologia possibilita o acesso e potencialmente qualquer pessoa que possua a interface digital para sua utilização, o que elimina a necessidade de instituições para mediar e ou intermediar as trocas de valores. O usuário utilizará o dinheiro digital da mesma forma que o dinheiro físico, porém com muito mais praticidade e segurança”, ressalta. Com menos processos em cada transação, fraudes e golpes devem diminuir, uma vez que o dinheiro chegará ao seu destino de forma mais rápida.

Além disso, o Real Digital facilitará o uso da moeda nacional fora do Brasil. Neste modelo, a já comum conversão da moeda por meio dos bancos não será necessária. O projeto ainda deve ajudar no combate à lavagem de dinheiro, e ainda, deve estimular o desenvolvimento da economia em nosso país.

Projeto em andamento

Em desenvolvimento desde 2020, a moeda digital brasileira está em fase de estudos, e deve ganhar um projeto-piloto ainda neste ano. Para isso, o órgão máximo da economia brasileira firmou uma parceria com a Federação Nacional de Associações dos Servidores do Banco Central (Fenasbac), na busca por projetos que comprovem a aplicação efetiva da nova moeda.

Intitulado Lift Challenge Real Digital, o programa recebeu 47 projetos, dos quais 9 foram selecionados. Rodrigoh Henriques, Líder de Inovações Financeiras da Fenasbac e Coordenador do Lift Lab, explica que o desafio lançado ao mercado buscou trazer para o desenvolvimento da moeda os melhores players e projetos com aplicações reais.

“O objetivo é identificar empresas maduras do mercado financeiro, com capacidade de implementar sistemas de alta complexidade e interessadas em desenvolver um Produto Minimamente Viável (MVP) para casos de uso do Real Digital, que possa beneficiar o Sistema Financeiro Nacional”, afirma.

Segundo ele, a seleção dos projetos buscou um equilíbrio entre a diversidade do portfólio de propostas apresentadas para o laboratório e a necessidade de acompanhamento detalhado dos projetos escolhidos. Diante disso, foram selecionadas propostas que mostram a aplicação do Real Digital em diversos contextos.

“A escolha ficou para projetos que abordam o DvP, voltado à liquidação de transações com ativos digitais e físicos tokenizados (como carros e imóveis), PvP voltado ao envio de valores com câmbio de moedas (remittance), uso de internet das coisas (IOT) para liquidação algorítmica ou diretamente entre máquinas e DeFi, finanças descentralizadas com o objetivo de definir protocolos com liquidação baseada em CBDC e com vistas a requisitos de compliance e supervisão estabelecidos em norma”, nos explica.

Dentro do estudo, a real possibilidade de aplicação dos projetos foi um dos principais fatores, assim como os processos e custos envolvidos no processo.

Resolução de problemas

Diante de tantas ferramentas que temos à nossa disposição nos dias atuais, o seguinte questionamento pode surgir: por que é necessária a criação de uma moeda digital? Afinal, a desbancarização aos poucos vem sendo diminuída com a presença de startups e cooperativas financeiras. Mas quais problemas ainda precisam ser sanados?

Para Henriques, o Real Digital vem justamente para solucionar problemas que até mesmo o mercado ainda não identificou. Neste quesito, espera-se que o próprio Lift Challenge identifique possíveis barreiras que venham a surgir futuramente. “Um Real Digital precisa resolver problemas que não foram resolvidos pelo SPB, pelo Pix e nem pelo Open Banking. Pensar em casos de uso reais, implementá-los em 4 meses e mostrar como eles melhoram a vida do cidadão brasileiro é o grande desafio”, salienta.

Oportunidade para as cooperativas

No cenário que se abre, a chegada do Real Digital deve intensificar ainda mais a disputa pela atenção do cliente. Em um contexto onde já temos bancos tradicionais e digitais, instituições de pagamentos, startups e cooperativas de crédito, a competitividade deve ser a palavra que melhor descreverá o futuro da economia no Brasil.

Para Marcio Nami, mesmo com tanta competitividade, o cooperativismo de crédito terá no Real Digital a possibilidade de protagonizar um momento de maior inclusão. Enquanto as grandes instituições devem ver principalmente a redução de custos de transação e incremento na agilidade das mesmas, nas cooperativas o Real Digital terá um outro papel.

“Em particular para as cooperativas de crédito, sociedades de pessoas, que já tem em sua bandeira e DNA a Inclusão Financeira, será um aliado muito importante de formação de consciência, educação e acesso financeiro. Com potencial de garantir o êxito das cooperativas principalmente no princípio cooperativista INTERESSE PELA COMUNIDADE, garantindo assim sua inclusão e maior inserção no mercado financeiro”, reitera.

Novas perspectivas

Os impactos efetivos da aplicação do Real Digital ainda são uma teoria. Mesmo com projetos em andamento, a nova modalidade da moeda brasileira tem um longo caminho pela frente, até de fato entrar no cotidiano da população.

Contudo, especialistas indicam que as perspectivas são as melhores. Para Henriques, o estímulo ao diálogo é um dos principais ganhos no processo de desenvolvimento da moeda no Lift Lab, e deve fomentar novas ideias nos próximos meses. “O portfólio de propostas se alinha às diretrizes do Real Digital e às ações da Agenda BC#. Os projetos permitem discussões relevantes para compreender melhor os casos de uso com o objetivo de implementar a moeda digital brasileira de forma a agregar funcionalidades aos sistemas de pagamento e liquidação, gerando benefícios para toda a sociedade”, declara.

Porém, analisando toda a trajetória que o Real Digital já possui, é consenso que o principal legado que a nova modalidade deixará, será a inclusão financeira. Para Nami, tal movimento trará benefícios incalculáveis. “Assim quando conseguimos incluir mais e mais pessoas no sistema financeiro, a velocidade de circulação do dinheiro e o aumento natural das transações, tem o potencial de gerar benefícios de forma exponencial, o que não garante, mas sinaliza, um potencial maior de inclusão e geração de renda e riquezas”, finaliza.

Sejam quais for os próximos passos, fica claro que caminhamos para um mercado mais convidativo e menos excludente. Diante disso, os ganhos não serão apenas individuais, mas para todos. Para uma economia e uma sociedade financeiramente forte, isso é essencial.

Por Leonardo César – Matéria publicada na revista MundoCoop, edição 105

Fonte: mundocoop.com.br

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