O governo federal anuncia nesta terça-feira (30/6), às 10h, em Brasília, o Plano Safra 2026/27 da agricultura empresarial. A cerimônia será presidida pelo vice-presidente Geraldo Alckmin, sem a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que participa da Cúpula do Mercosul, no Paraguai. O plano da agricultura familiar, conduzido pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), será apresentado à tarde. O novo ciclo vigora de 1º de julho de 2026 a 30 de junho de 2027.
Embora o valor total, as taxas de juros por linha e o desenho do novo seguro rural só venham a ser conhecidos com a publicação oficial do pacote, parte da base regulatória do novo ciclo já está posta. Em 25 de junho, o Conselho Monetário Nacional (CMN) publicou duas resoluções com vigência a partir de 1º de julho.
Fontes de recursos e prorrogações de crédito rural
Resolução CMN nº 5.314/2026 — fontes de recursos e prorrogações. A norma reorganiza, no Manual de Crédito Rural (MCR), a classificação das fontes de recursos.
- Por origem, passam a ser divididas entre direcionados (com disposição legal ou regulamentar de aplicação em crédito rural) e livres (captações não sujeitas a direcionamento ou recursos próprios da instituição).
- Por condições — encargos, prazo e limite —, a divisão é entre controlados (fixados pelo CMN ou outro órgão regulador) e não controlados (pactuados entre beneficiário e instituição financeira). A antiga seção “Livres” passa a se chamar “Recursos Não Controlados”. Não há alteração nos percentuais das exigibilidades.
- A resolução também permite que a instituição financeira, por decisão própria e a pedido do mutuário, prorrogue a dívida aos mesmos encargos, desde que comprovada dificuldade temporária e atestadas a necessidade e a capacidade de pagamento; passa a exigir a identificação da fonte de recursos no contrato; e veda financiar, com recursos direcionados e controlados, empreendimento cujo projeto preveja supressão de vegetação nativa.
Alterações no Proagro
Resolução CMN nº 5.315/2026 — Proagro. A norma ajusta as alíquotas básicas de adicional para enquadramento de empreendimentos e as regras de comprovação de perdas.
- Segundo o Banco Central, as alíquotas de equilíbrio e os adicionais foram atualizados, refletindo a melhora do perfil de risco e permitindo redução do custo médio pago pelos beneficiários, sem aumento de despesa para o Tesouro — resultado da reestruturação do Proagro iniciada em 2024.
- A norma admite vistoria única em casos de perda parcial de alta gravidade e reforça a comprovação documental, com no mínimo três fotos coloridas por visita, registro do agricultor no local e georreferenciamento da área enquadrada.
Números do Plano Safra ainda em negociação
Os valores do novo plano seguem em discussão com a equipe econômica e não são oficiais até a publicação dos atos.
As propostas dos ministérios somam cerca de R$ 652 bilhões, aproximadamente 10% acima do ciclo atual. As estimativas apontam algo em torno de R$ 550 a R$ 570 bilhões para médios e grandes produtores e cerca de R$ 82 bilhões para a agricultura familiar.
No ciclo 2025/26, a agricultura empresarial contou com R$ 516,2 bilhões, com juros de custeio entre 10% e 14% ao ano; para 2026/27, discute-se corte de até 2 pontos percentuais, em meio a forte restrição fiscal. Em perspectiva histórica, o crédito para a agricultura empresarial saiu de R$ 222,7 bilhões em 2019/20 para R$ 364,2 bilhões em 2023/24, R$ 400,6 bilhões em 2024/25 e R$ 516,2 bilhões em 2025/26 — neste último ciclo já com a incorporação das Cédulas de Produto Rural (CPR) ao cômputo do plano.
O que mais pesa no anúncio do Plano Safra
O que mais pesa: a parcela subsidiada. Mais do que o tamanho global do plano, o que define o custo real do financiamento é a fatia subsidiada.
O crédito rural divide-se entre recursos controlados — com juros fixos, sustentados pela equalização bancada pelo Tesouro — e recursos livres, contratados a taxas de mercado, próximas à Selic.
Nos últimos ciclos, o volume controlado manteve-se praticamente estável, em torno de R$ 189 bilhões, enquanto o total cresceu à custa dos recursos livres: em 2024/25 eram R$ 189 bilhões controlados para R$ 211,5 bilhões livres; em 2025/26, os mesmos R$ 189 bilhões controlados ante R$ 327 bilhões livres.
O custo da equalização do ciclo atual foi estimado por analistas do setor em torno de R$ 58 bilhões. Por isso, num momento de endividamento elevado — com o governo discutindo a renegociação de cerca de R$ 82 bilhões em dívidas do setor — e de maior risco climático, o que de fato importa ao produtor é quanto será reservado às linhas com juros equalizados e à subvenção do seguro rural. Recursos livres ampliam o número total anunciado, mas chegam ao campo a taxas de mercado; a parcela subsidiada e o seguro subvencionado é que determinam o custo efetivo do crédito.
Recursos controlados × livres — agricultura empresarial (R$ bilhões)
| Ciclo | Controlados | Livres | Total |
|---|---|---|---|
| 2024/25 | 189,1 | 211,5 | 400,6 |
| 2025/26 | 189,0 | 327,0 | 516,2 |
| Variação | estável | +54,6% | +28,9% |
Entre os dois ciclos, todo o crescimento do crédito empresarial veio dos recursos livres, contratados a taxas de mercado; a parcela controlada, com juros subsidiados, manteve-se praticamente estável — parte desse avanço também reflete a incorporação das Cédulas de Produto Rural (CPR) ao cômputo do plano em 2025/26.
A agricultura familiar – Pronaf
O Plano Safra da Agricultura Familiar, conduzido pelo MDA, segue lógica semelhante, mas com juros bem mais baixos e quase integralmente subsidiados.
No ciclo 2025/26, o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) ofertou R$ 78,2 bilhões em crédito — parte de um pacote de R$ 89 bilhões que inclui ainda seguro, compras públicas e assistência técnica —, com taxas de 0,5% a 8% ao ano: 3% para a produção de alimentos da cesta básica e 2% para orgânicos e agroecológicos.
Para 2026/27, a expectativa do MDA é de aumento de cerca de 5%, para R$ 82 bilhões, com manutenção das taxas (faixa de 2% a 6%, e de 6,5% a 8% em itens específicos).
A forte demanda reforça a relevância do programa: até maio, já haviam sido acessados R$ 60,9 bilhões, quase 80% do total disponibilizado. Por concentrar recursos equalizados e juros reais baixos — em alguns casos negativos —, o Pronaf é o exemplo mais nítido de que, no crédito rural, o que de fato pesa para o produtor é a parcela subsidiada.
Agricultura familiar — crédito do Pronaf (R$ bilhões)
| Ciclo | Pronaf |
|---|---|
| 2024/25 | 76,0 |
| 2025/26 | 78,2 |
| 2026/27 (esperado) | ~82,0 |
Diferentemente do crédito empresarial, dominado por recursos livres, o Pronaf é quase totalmente subsidiado, com juros reais baixos — em alguns casos negativos — para a produção de alimentos. Os valores de 2026/27 são expectativa e dependem da publicação oficial.
O que ainda depende de anúncio?
Permanecem pendentes de definição oficial o valor total do plano, as taxas de juros por linha, o desenho do novo seguro rural e as condições de liberação dos recursos. A construção do pacote ocorreu predominantemente em nível técnico. Há ainda a janela eleitoral: a Lei nº 9.504/1997 veda a publicidade institucional a partir de 4 de julho de 2026.
Elaborado pelo Portal do Cooperativismo Financeiro – cooperativismodecredito.coop.br
Fontes consultadas: Resoluções CMN nº 5.314/2026 e nº 5.315/2026; Banco Central do Brasil; Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) — Plano Safra 2025/2026; Globo Rural; Dinheiro Rural; Valor Econômico — proposta de renegociação de dívidas de produtores rurais (24/04/2026).

