Ativos problemáticos sobem, mas cooperativas de crédito mantêm rentabilidade e capitalização confortáveis
Panorama do Banco Central mostra aumento do risco da carteira em 2025, mas também evidencia resultado positivo, ROE de 17,1%, provisões acima das perdas esperadas e Índice de Basileia em patamar elevado.
Esta reportagem integra o Especial Panorama SNCC 2025: o novo patamar do cooperativismo financeiro brasileiro, série do Portal do Cooperativismo Financeiro baseada no relatório anual do Banco Central do Brasil sobre o Sistema Nacional de Crédito Cooperativo. Nesta análise, o foco está nos indicadores de risco, rentabilidade e eficiência, mostrando que as cooperativas de crédito mantiveram resultado positivo, ROE saudável e capitalização confortável, embora tenham enfrentado aumento dos ativos problemáticos, maior custo de captação e compressão das margens de crédito.
O cooperativismo de crédito brasileiro encerrou 2025 em condição financeira sólida, mas com sinais claros de maior pressão sobre a qualidade da carteira e sobre as margens. Segundo o Panorama do Sistema Nacional de Crédito Cooperativo (SNCC), divulgado pelo Banco Central, a carteira ativa do segmento cresceu 13,1% no ano, acima do crescimento do restante do Sistema Financeiro Nacional, que foi de 8,5%.
Ao mesmo tempo, o nível de ativos problemáticos aumentou e chegou a 7,8% da carteira no final de 2025, depois de atingir pico de 8,3% em agosto. O dado mostra que o novo ciclo do SNCC combina crescimento relevante com necessidade crescente de disciplina na concessão, acompanhamento próximo dos tomadores e gestão prudente de riscos.
Cooperativas de Crédito crescem acima do SFN, mas risco da carteira aumenta
O crescimento da carteira de crédito do SNCC em 2025 confirmou a força das cooperativas no financiamento de pessoas físicas, empresas, produtores rurais e micro, pequenas e médias empresas. A expansão de 13,1% ficou acima da registrada pelo restante do Sistema Financeiro Nacional, reforçando o ganho de participação do segmento no mercado de crédito.
Entretanto, esse avanço veio acompanhado de deterioração dos indicadores de qualidade da carteira. O nível de ativos problemáticos atingiu 7,8% ao final do ano. Entre pessoas físicas, o percentual foi de 7,6%. Entre pessoas jurídicas, chegou a 8,1%.
O aumento do risco ocorreu em um ambiente de crescimento da carteira, mudanças regulatórias relacionadas à classificação e ao provisionamento de perdas, maior pressão econômica sobre tomadores e aumento do custo financeiro. Para as cooperativas, o desafio passa a ser manter o crescimento do crédito sem comprometer a qualidade das operações.
Ativos problemáticos exigem atenção do cooperativismo financeiro
A elevação dos ativos problemáticos é um dos principais pontos de atenção do relatório. O indicador mede operações com maior probabilidade de perda, incluindo créditos em atraso relevante, reestruturações e exposições com sinais de deterioração.
O fato de o indicador ter alcançado 7,8% no encerramento de 2025 mostra que a expansão do crédito precisa ser acompanhada por maior rigor de análise, monitoramento e cobrança. Isso vale especialmente para carteiras de maior sensibilidade econômica, como operações com empresas de menor porte e segmentos sujeitos a ciclos de renda mais voláteis.
Apesar do aumento do risco, o relatório também indica que o nível de provisões permaneceu superior às perdas esperadas. O índice de cobertura ficou em 1,04, mostrando que o segmento constituiu provisões suficientes para cobrir as perdas estimadas, o que contribui para preservar a estabilidade financeira das cooperativas.
Provisões das cooperativas seguem acima das perdas esperadas
O provisionamento é um dos elementos centrais para avaliar a resiliência das instituições financeiras diante da deterioração da carteira. No caso do SNCC, o Banco Central aponta que as provisões permaneceram acima das perdas esperadas, mesmo com o aumento dos ativos problemáticos.
Nas cooperativas singulares, o nível de provisionamento alcançou aproximadamente 7,4% da carteira de crédito, acima do observado no Sistema Financeiro Nacional, que ficou em torno de 6,4%. Esse dado mostra uma postura prudente do segmento no reconhecimento dos riscos da carteira.
Além disso, as despesas de provisão líquidas de reversão tiveram crescimento de apenas 2,8% em 2025, percentual bem inferior ao observado em outras linhas de despesa, como as despesas de captação. Esse comportamento indica que, embora o risco tenha aumentado, o esforço adicional de provisionamento foi mais moderado em relação ao ano anterior.
Resultado das cooperativas cresce para R$ 21,1 bilhões
Mesmo em um ambiente de maior risco e pressão sobre margens, as cooperativas singulares registraram resultado positivo em 2025. O resultado antes da remuneração do capital alcançou R$ 21,1 bilhões, crescimento de 21,9% em relação a 2024.
As receitas totais somaram R$ 170,4 bilhões, enquanto as despesas totais chegaram a R$ 149,4 bilhões. O crescimento das receitas foi puxado principalmente pelas rendas de operações de crédito e pelo resultado com títulos, valores mobiliários e ativos de tesouraria.
As rendas de operações de crédito avançaram 25,9% e responderam por cerca de 56% das receitas totais. Já o resultado com títulos e ativos de tesouraria cresceu 29,3% e representou aproximadamente 25% das receitas. As receitas de serviços cresceram de forma mais moderada, com avanço de 3,5%.
Custo de captação pressiona margens do cooperativismo
O principal fator de pressão sobre o resultado das cooperativas em 2025 foi o aumento do custo de captação. As despesas de captação cresceram 46,2% no ano e passaram a representar aproximadamente 50% das despesas totais das cooperativas singulares.
Esse crescimento reflete um ambiente de maior competição por recursos, juros elevados e maior participação de instrumentos remunerados na estrutura de funding, como depósitos a prazo, letras de crédito e repasses. Embora esses instrumentos ajudem a sustentar a expansão da carteira, também elevam o custo financeiro das cooperativas.
A pressão fica evidente na decomposição da margem de crédito. Em 2025, o retorno bruto do crédito foi de 20,7%. O custo de captação ficou em 10,6%. As despesas de provisão em relação à carteira média representaram 4,5%. Com isso, a margem de crédito líquida ficou em 5,6%.
Rentabilidade permanece saudável nas cooperativas
Apesar da pressão sobre o custo de captação e do aumento do risco da carteira, os indicadores de rentabilidade das cooperativas singulares permaneceram em níveis confortáveis. O ROE ficou em 17,1% em 2025, enquanto o ROA alcançou 2,5%.
A rentabilidade líquida dos ativos de renda da intermediação financeira ficou em torno de 5,7%. Esses indicadores mostram que o segmento continuou capaz de gerar resultado, fortalecer reservas e sustentar o crescimento patrimonial.
A distribuição da rentabilidade, contudo, não foi homogênea. O Banco Central aponta que cerca de 8,3% das cooperativas singulares tiveram ROE negativo. Por outro lado, 12,9% das cooperativas apresentaram ROE acima de 25%, e parte relevante do segmento ficou concentrada nas faixas intermediárias de rentabilidade.
Eficiência operacional melhora, mas segue como desafio
O indicador de eficiência operacional das cooperativas singulares apresentou melhora em 2025 em relação ao ano anterior. O índice ficou em torno de 59%, retornando a patamar próximo ao observado dois anos antes.
Esse resultado reflete a combinação entre crescimento do resultado de intermediação financeira, avanço das receitas e controle relativo das despesas administrativas. As despesas administrativas cresceram 17,8%, abaixo do crescimento das receitas totais, mas ainda representam parcela relevante da estrutura de custos.
Mesmo com melhora de eficiência, as despesas administrativas das cooperativas continuaram superiores às do SFN quando medidas em relação ao ativo total médio. Nas cooperativas singulares, esse indicador ficou em aproximadamente 4,3%, enquanto no SFN ficou em torno de 3,0%. A diferença reflete o modelo de negócios mais intensivo em relacionamento, presença territorial e atendimento próximo ao associado.
Cooperativas de Crédito mantêm capitalização confortável
A solidez patrimonial é um dos pontos favoráveis do Panorama. O patrimônio líquido das cooperativas singulares chegou a R$ 133 bilhões em dezembro de 2025, crescimento de 13,7% em relação ao ano anterior.
A estrutura do patrimônio permaneceu baseada em capital social e reservas. O capital social representava cerca de 52% do patrimônio líquido, enquanto as reservas respondiam por aproximadamente 44%. Essa composição reforça a característica cooperativa de fortalecimento patrimonial por meio da capitalização dos associados e da retenção de resultados.
O Índice de Basileia agregado das cooperativas singulares ficou em torno de 21,4%, em patamar confortável frente aos limites regulatórios. Segundo o Banco Central, 78% das instituições possuíam capital superior ao dobro do mínimo exigido.
Necessidade de capital adicional é restrita no SNCC
Apesar dos desafios de risco e margem, a necessidade de capital adicional no SNCC permaneceu restrita. O relatório aponta que apenas 11 cooperativas, representando 0,56% dos ativos do segmento, tinham necessidade de capital adicional para cumprir seus requerimentos prudenciais.
O montante necessário para reenquadramento era pouco significativo em relação ao Patrimônio de Referência agregado do sistema. Isso indica que o aumento do risco de crédito não compromete, no momento, a solvência agregada das cooperativas.
Ainda assim, os novos limites de capital integralizado e patrimônio líquido, com exigência gradual até 2028, devem influenciar a estrutura do setor nos próximos anos. A tendência é que parte das cooperativas busque reforço de capital, incorporação, reestruturação ou adequação de atividades para cumprir os novos parâmetros regulatórios.
Principais números de risco, resultado e capital no Panorama SNCC 2025
O Panorama SNCC 2025 reúne dados relevantes sobre risco, rentabilidade, eficiência e solvência das cooperativas de crédito. Entre os principais indicadores, destacam-se:
- Crescimento da carteira ativa do SNCC: 13,1%;
- Crescimento da carteira no SFN ex-SNCC: 8,5%;
- Ativos problemáticos totais: 7,8% da carteira;
- Pico de ativos problemáticos em 2025: 8,3% em agosto;
- Ativos problemáticos em pessoas físicas: 7,6%;
- Ativos problemáticos em pessoas jurídicas: 8,1%;
- Índice de cobertura das perdas esperadas: 1,04;
- Resultado das cooperativas singulares: R$ 21,1 bilhões;
- Crescimento do resultado: 21,9%;
- Receitas totais: R$ 170,4 bilhões;
- Despesas totais: R$ 149,4 bilhões;
- Crescimento das despesas de captação: 46,2%;
- Margem de crédito líquida: 5,6%;
- ROE: 17,1%;
- ROA: 2,5%;
- Eficiência operacional: aproximadamente 59%;
- Patrimônio líquido das singulares: R$ 133 bilhões;
- Índice de Basileia: aproximadamente 21,4%;
- Cooperativas com necessidade de capital adicional: 11;
- Participação dessas cooperativas nos ativos do segmento: 0,56%.
Nova fase exige disciplina de risco e gestão de margens
Os dados do Banco Central mostram que o cooperativismo financeiro permanece sólido, rentável e capitalizado. Ao mesmo tempo, o relatório deixa claro que a nova fase do setor será mais exigente.
O crescimento da carteira acima do SFN reforça a relevância das cooperativas no mercado de crédito, mas o aumento dos ativos problemáticos impõe atenção redobrada. A expansão precisa ser acompanhada por melhoria na originação, acompanhamento de carteiras, precificação adequada, cobrança eficiente e uso mais intenso de dados para gestão de riscos.
A pressão sobre o custo de captação também exige gestão ativa do funding. As cooperativas precisarão equilibrar crescimento das captações, custo financeiro, fidelização dos associados, diversificação de instrumentos e manutenção de margens suficientes para sustentar resultado, reservas e capital.
Cooperativismo financeiro segue sólido, mas com desafios mais complexos
O Panorama do Banco Central indica que o SNCC atravessa uma etapa de crescimento com fundamentos sólidos. O resultado positivo, a rentabilidade em patamar saudável, o provisionamento acima das perdas esperadas e a capitalização confortável demonstram resiliência.
No entanto, o aumento do risco da carteira, a compressão das margens e a elevação do custo de captação mostram que o crescimento futuro dependerá de maior sofisticação na gestão. O setor precisará combinar proximidade com o associado, disciplina financeira, eficiência operacional, governança e capacidade de adaptação ao ambiente regulatório.
A nova fase do cooperativismo de crédito não será definida apenas pelo crescimento dos ativos ou da carteira. Será definida pela capacidade das cooperativas de crescer com qualidade, manter solidez, preservar rentabilidade, gerir riscos e continuar entregando valor aos associados e às comunidades onde atuam.
Elaborado pelo Portal do Cooperativismo Financeiro – cooperativismodecredito.coop.br
Conheça o conteúdo completo no Panorama do Sistema Nacional de Crédito Cooperativo (SNCC).

