Cooperativismo de crédito supera R$ 1 trilhão em ativos e entra em nova fase no Brasil

Panorama do Banco Central mostra avanço em ativos, cooperados, crédito, captações e presença territorial, mas também aponta desafios relacionados ao risco da carteira, custos de captação, eficiência operacional, capital e governança.

Esta reportagem abre o Especial Panorama SNCC 2025: o novo patamar do cooperativismo financeiro brasileiro, série do Portal do Cooperativismo Financeiro baseada no relatório anual do Banco Central do Brasil sobre o Sistema Nacional de Crédito Cooperativo. A publicação mostra que as cooperativas de crédito alcançaram escala inédita no país, com avanço em ativos, cooperados, crédito, captações e presença territorial, ao mesmo tempo em que passam a enfrentar desafios mais complexos relacionados à qualidade da carteira, ao custo de captação, à eficiência operacional, ao capital e à governança.

O cooperativismo de crédito brasileiro encerrou 2025 em um novo patamar de relevância no Sistema Financeiro Nacional. Segundo o Panorama do Sistema Nacional de Crédito Cooperativo (SNCC), divulgado pelo Banco Central, os ativos totais do segmento ultrapassaram pela primeira vez a marca de R$ 1 trilhão, alcançando R$ 1,036 trilhão em dezembro de 2025. O crescimento anual foi de 17,0%, desempenho superior ao observado no restante do Sistema Financeiro Nacional.

O avanço confirma uma trajetória consistente de ganho de participação. Em 2025, o SNCC passou a representar 6,3% dos ativos totais, 8,0% da carteira de crédito e 9,8% dos depósitos do Sistema Financeiro Nacional. Em 2021, esses percentuais eram, respectivamente, 4,4%, 6,0% e 7,0%. A evolução mostra que o cooperativismo financeiro segue ampliando sua relevância em indicadores centrais do sistema financeiro brasileiro.

Cooperativas de Crédito alcançam novo patamar de escala

O crescimento dos ativos ocorreu em paralelo a um processo de consolidação institucional. Em dezembro de 2025, o SNCC contava com 742 cooperativas singulares, ante 753 em 2024 e 818 em 2021. A redução no ano foi de 1,5% e decorreu principalmente de processos de incorporação. Em 2025, foram registradas 11 incorporações e uma dissolução/liquidação ordinária.

Esse movimento indica que a redução no número de cooperativas não representa retração do segmento, mas sim reorganização societária, ganho de escala e fortalecimento institucional. A concentração dos ativos também evidencia essa tendência: as 141 cooperativas singulares com ativos superiores a R$ 2 bilhões concentravam aproximadamente 73,3% dos ativos do segmento em dezembro de 2025. Apenas 41 cooperativas com ativos acima de R$ 5 bilhões respondiam por cerca de 39,4% do total.

Também cresceu a participação das cooperativas de maior complexidade. As cooperativas classificadas como plenas somavam 90 instituições, equivalentes a 12,1% do total de singulares, mas respondiam por 49,1% dos ativos. As cooperativas clássicas, embora ainda majoritárias em número, representavam 67,9% das singulares e 50,6% dos ativos.

Base de cooperados supera 21 milhões de associados

A base social das cooperativas de crédito também seguiu em expansão. O número de cooperados chegou a 21,2 milhões ao final de 2025, crescimento de 10,4% no ano. Desse total, 17,8 milhões eram pessoas físicas e 3,4 milhões pessoas jurídicas. Em 2021, o segmento contava com 13,6 milhões de cooperados, o que significa acréscimo de aproximadamente 7,6 milhões de associados em quatro anos.

O crescimento das pessoas jurídicas foi especialmente relevante. Em 2025, a base de cooperados PJ avançou 12,7%, acima do crescimento das pessoas físicas, que foi de 10,0%. O dado reforça o papel das cooperativas no atendimento a empresas, especialmente micro e pequenos negócios. Segundo o relatório, 96,2% das pessoas jurídicas associadas são de porte micro ou pequeno.

A participação da população brasileira associada a cooperativas de crédito também aumentou, chegando a 8,4% em 2025. O índice, contudo, varia bastante entre as regiões. No Sul, 26,3% da população é associada a cooperativas de crédito. No Centro-Oeste, o percentual é de 12,0%; no Sudeste, 6,3%; no Norte, 5,6%; e no Nordeste, apenas 1,6%. Esses números indicam que o cooperativismo ainda possui ampla fronteira de expansão em regiões menos cooperativizadas.

O novo patamar do cooperativismo financeiro brasileiro

A presença territorial é um dos elementos mais importantes da expansão do cooperativismo financeiro. Ao final de 2025, as cooperativas de crédito contavam com 10.553 unidades de atendimento, sendo 742 sedes e 9.811 postos de atendimento cooperativo. O número total de unidades cresceu 3,2% em relação a 2024.

As cooperativas estavam presentes em 3.287 municípios, o equivalente a 59,0% dos municípios brasileiros. Em 2021, eram 2.907 municípios atendidos. No mesmo período, os municípios com agências do SFN, excluído o cooperativismo, caíram de 3.147 para 2.924. Ou seja, entre 2021 e 2025, as cooperativas ampliaram presença em 380 municípios, enquanto a rede bancária tradicional reduziu presença em 223 municípios.

A comparação anual também chama atenção. Em 2025, o SNCC passou a atender 56 novos municípios, enquanto o restante do Sistema Financeiro Nacional deixou de contar com agências em 85 municípios. O relatório aponta ainda que 1.072 municípios sem agência bancária tradicional possuem ao menos uma sede ou posto de atendimento de cooperativa de crédito, evidenciando o papel do cooperativismo como instrumento de inclusão financeira presencial.

A cobertura regional, entretanto, permanece desigual. No Sul, 97,2% dos municípios contam com unidades físicas de cooperativas de crédito. No Centro-Oeste, o percentual é de 80,3%; no Sudeste, 76,4%; no Norte, 42,2%; e no Nordeste, 16,1%. A diferença reforça o potencial de crescimento do cooperativismo financeiro em regiões ainda pouco atendidas.

Captações chegam a R$ 834 bilhões

As captações do SNCC também cresceram de forma expressiva. O estoque total atingiu R$ 834,4 bilhões em dezembro de 2025, alta de 17,6% no ano. O principal instrumento foram os depósitos a prazo, que somaram R$ 430,7 bilhões e representaram 51,7% do total captado.

As Letras de Crédito do Agronegócio, Letras de Crédito Imobiliário e Letras Financeiras somaram R$ 117,3 bilhões, equivalentes a 14,1% das captações. Nesse grupo, o destaque foi a LCA, cujo estoque chegou a R$ 102,5 bilhões, representando cerca de 88% do total das letras. O dado reforça a relação estrutural entre cooperativismo de crédito e financiamento do agronegócio.

Também aumentou a relevância de empréstimos e repasses, que alcançaram aproximadamente R$ 86,7 bilhões. Desse total, R$ 52,0 bilhões correspondiam a repasses do BNDES, o equivalente a cerca de 60% dessa modalidade. Esse movimento evidencia o papel crescente das cooperativas como canais de financiamento de investimentos produtivos e de longo prazo.

Resultado positivo, mas com pressão nas margens

As cooperativas singulares registraram resultado de R$ 21,1 bilhões em 2025, crescimento de 21,9% frente ao ano anterior. As receitas totais somaram R$ 170,4 bilhões, enquanto as despesas chegaram a R$ 149,4 bilhões.

As rendas de operações de crédito continuaram sendo a principal fonte de receita, com participação de 56,3% no total. O resultado com títulos, valores mobiliários e ativos de tesouraria representou 24,9%, enquanto as receitas de serviços responderam por 7,1%.

Do lado das despesas, o principal ponto de atenção foi o custo de captação. As despesas de captação cresceram 46,2% e passaram a representar 49,7% das despesas totais das cooperativas singulares. As despesas administrativas corresponderam a 24,5% e as despesas de provisão a 14,1%.

A decomposição da margem de crédito mostra a pressão sobre a rentabilidade. Em 2025, o retorno bruto do crédito foi de 20,7%, o custo de captação de 10,6% e as despesas de provisão sobre a carteira média de 4,5%, resultando em margem de crédito líquida de 5,6%.

Apesar desse cenário, os indicadores de rentabilidade permaneceram em nível confortável. O ROE das cooperativas singulares foi de 17,1%, enquanto o ROA ficou em 2,5%. A rentabilidade líquida dos ativos de renda da intermediação financeira foi de 5,7%.

Crédito cooperativo cresce acima do SFN, mas risco aumenta

A carteira ativa do SNCC cresceu 13,1% em 2025, acima do crescimento do restante do Sistema Financeiro Nacional, que foi de 8,5%. O segmento continuou ampliando sua participação no crédito, especialmente em operações com pessoas físicas, crédito rural, crédito agroindustrial e financiamento a micro, pequenas e médias empresas.

O crescimento, porém, veio acompanhado de aumento do risco. O nível de ativos problemáticos chegou a 7,8% da carteira no final de 2025, após atingir pico de 8,3% em agosto. Entre pessoas físicas, o indicador ficou em 7,6%; entre pessoas jurídicas, em 8,1%.

O ponto positivo é que o nível de provisões permaneceu superior às perdas esperadas, com índice de cobertura de 1,04. Ainda assim, a elevação dos ativos problemáticos é um dos principais alertas do Panorama, especialmente em um contexto de crescimento da carteira, aumento do custo de captação e compressão das margens.

Principais números do Panorama SNCC 2025

O Panorama SNCC 2025 reúne um conjunto amplo de indicadores sobre a evolução do cooperativismo financeiro no Brasil. Entre os principais números, destacam-se:

  • Ativos totais: R$ 1,036 trilhão;
  • Crescimento dos ativos: 17,0%;
  • Cooperados: 21,2 milhões;
  • Pessoas físicas cooperadas: 17,8 milhões;
  • Pessoas jurídicas cooperadas: 3,4 milhões;
  • Captações totais: R$ 834,4 bilhões;
  • Depósitos a prazo: R$ 430,7 bilhões;
  • Carteira de crédito ativa: crescimento de 13,1%;
  • Resultado das cooperativas singulares: R$ 21,1 bilhões;
  • ROE: 17,1%;
  • Presença territorial: 3.287 municípios;
  • Cobertura municipal: 59,0% dos municípios brasileiros;
  • Municípios sem agência bancária com presença cooperativa: 1.072;
  • Ativos problemáticos: 7,8% da carteira;
  • Índice de Basileia: aproximadamente 21,4%.

Cooperativas de Crédito mantêm solidez patrimonial

O patrimônio líquido das cooperativas singulares alcançou R$ 133 bilhões em dezembro de 2025, crescimento de 13,7% no ano. A estrutura patrimonial permaneceu baseada principalmente em capital social, que respondeu por 52% do total, e reservas, com 44%.

A capitalização agregada também permaneceu confortável. O Índice de Basileia das cooperativas singulares ficou em torno de 21,4%, em patamar elevado em relação aos limites regulatórios. O relatório indica que 78% das instituições possuem capital superior ao dobro do mínimo exigido, e apenas 11 cooperativas, representando 0,56% dos ativos do segmento, tinham necessidade de capital adicional para cumprir seus requerimentos prudenciais.

Mesmo com a solidez atual, os novos limites de capital integralizado e patrimônio líquido devem influenciar a estrutura do setor nos próximos anos. Segundo o Banco Central, simulações iniciais indicavam que 148 cooperativas clássicas e plenas poderiam apresentar desenquadramento após a fase de transição. Com ajustes normativos e a possibilidade de consideração do fundo de reserva para fins de cálculo, esse número foi reduzido para 38 cooperativas com perspectiva de permanecerem desenquadradas ao final do período de transição.

Crescimento exige eficiência, capital e governança

O Panorama do Banco Central mostra que o cooperativismo de crédito brasileiro segue em trajetória de expansão, mas também evidencia que o setor entrou em uma fase mais complexa. O crescimento acima do SFN, a ampliação da base de cooperados, a presença em municípios desassistidos e a marca de R$ 1 trilhão em ativos confirmam a relevância econômica e social do segmento.

Ao mesmo tempo, os dados apontam desafios importantes: aumento dos ativos problemáticos, maior custo de captação, pressão sobre margens, necessidade de ganhos de eficiência, adaptação aos novos limites de capital, consolidação institucional, sucessão de lideranças, diversidade nos órgãos estatutários, risco cibernético e equilíbrio entre presença física e atendimento digital.

A próxima etapa do cooperativismo financeiro brasileiro, portanto, não será marcada apenas por crescimento. Será marcada pela capacidade das cooperativas de crescer com qualidade, preservar sua proximidade com os associados, fortalecer capital, aprimorar governança, melhorar eficiência e manter disciplina na gestão de riscos. O novo patamar alcançado em 2025 amplia a relevância do setor, mas também eleva o nível de responsabilidade institucional das cooperativas de crédito no desenvolvimento econômico e social do país.

Portal aprofundará temas do Panorama nos próximos dias

O primeiro texto da série apresenta uma visão geral dos principais números do Panorama do Sistema Nacional de Crédito Cooperativo. Nos próximos dias, o Portal do Cooperativismo Financeiro publicará novas reportagens aprofundando os principais temas do relatório anual do Banco Central.

A série abordará, entre outros pontos, a expansão territorial das cooperativas, o contraste entre avanço da rede cooperativa e retração das agências bancárias, o crescimento da base de cooperados, o potencial de expansão no Norte e Nordeste, o papel das cooperativas no crédito rural, a baixa cobertura de seguro agrícola, a evolução das captações, o uso de recursos municipais, o aumento dos ativos problemáticos, a pressão nas margens, a rentabilidade, a solvência, os novos limites de capital e os desafios de governança, sucessão e diversidade.

Com isso, o Portal busca contribuir para uma leitura mais ampla dos dados, mostrando não apenas o crescimento do cooperativismo de crédito, mas também os desafios da nova etapa de desenvolvimento do setor no Brasil.


Elaborado pelo Portal do Cooperativismo Financeiro – cooperativismodecredito.coop.br

Conheça o conteúdo completo no Panorama do Sistema Nacional de Crédito Cooperativo (SNCC).

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