Panorama do Banco Central mostra crescimento de 17,6% nas captações do SNCC, avanço dos depósitos a prazo, predominância das Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs) e nova regra que amplia o potencial de uso dos recursos municipais no crédito local.
Esta reportagem integra o Especial Panorama SNCC 2025: o novo patamar do cooperativismo financeiro brasileiro, série do Portal do Cooperativismo Financeiro baseada no relatório anual do Banco Central do Brasil sobre o Sistema Nacional de Crédito Cooperativo. O texto detalha a evolução das captações das cooperativas de crédito, com destaque para os depósitos a prazo, o crescimento das Letras de Crédito do Agronegócio e o novo tratamento regulatório dos recursos municipais, que amplia o potencial de direcionamento de recursos para o crédito local e o desenvolvimento das comunidades.
O cooperativismo de crédito brasileiro manteve forte capacidade de captação em 2025. Segundo o Panorama do Sistema Nacional de Crédito Cooperativo (SNCC), divulgado pelo Banco Central, o estoque total de captações do segmento chegou a R$ 834,4 bilhões em dezembro de 2025, crescimento de 17,6% em relação ao ano anterior.
O avanço das captações foi superior ao observado no restante do Sistema Financeiro Nacional e sustentou a expansão dos ativos e da carteira de crédito das cooperativas. O desempenho também reforça a capacidade do SNCC de atrair recursos de associados pessoas físicas, empresas, instituições financeiras e entes públicos, em um ambiente de maior competição por depósitos e elevação do custo de funding.
Cooperativas de Crédito ampliam captações em ritmo superior ao SFN
As captações do SNCC cresceram de forma robusta em 2025, acompanhando a expansão das operações do segmento. O estoque total passou de R$ 709,7 bilhões em dezembro de 2024 para R$ 834,4 bilhões em dezembro de 2025, acréscimo de aproximadamente R$ 124,7 bilhões no ano.
Esse crescimento foi impulsionado principalmente pelos depósitos a prazo, pelas letras de crédito e financeiras e pelos empréstimos e repasses. O desempenho evidencia a importância da base de captação para sustentar a expansão do crédito e a ampliação da participação das cooperativas no Sistema Financeiro Nacional.
Entre 2020 e 2025, o estoque total de captações do SNCC acumulou crescimento expressivo, em ritmo superior ao verificado no restante do sistema financeiro. Esse movimento confirma a maior relevância das cooperativas como destino de recursos de investidores, associados e instituições que buscam relacionamento financeiro com o segmento cooperativo.
Depósitos a prazo seguem como principal fonte de recursos
Os depósitos a prazo foram o principal instrumento de captação das cooperativas em 2025. O estoque dessa modalidade chegou a R$ 430,7 bilhões, o equivalente a 51,7% do total captado pelo SNCC.
O crescimento dos depósitos a prazo foi o maior responsável pela expansão das captações no ano. Entre dezembro de 2024 e dezembro de 2025, essa modalidade adicionou aproximadamente R$ 74,2 bilhões ao estoque total de captações.
A maior participação dos depósitos a prazo indica uma estrutura de funding mais apoiada em instrumentos remunerados e de maior previsibilidade. Ao mesmo tempo, esse perfil também exige atenção ao custo de captação, especialmente em um ambiente de juros elevados e maior competição entre instituições financeiras por recursos dos investidores.
Cooperativismo financeiro fortalece base de funding com LCAs
As Letras de Crédito do Agronegócio, Letras de Crédito Imobiliário e Letras Financeiras também tiveram papel relevante na composição das captações do SNCC. Em dezembro de 2025, esses instrumentos somavam R$ 117,3 bilhões, equivalentes a 14,1% do estoque total de captações.
Dentro desse grupo, o destaque absoluto foi a Letra de Crédito do Agronegócio. O estoque de LCAs chegou a R$ 102,5 bilhões, representando aproximadamente 88% do total formado por LCA, LCI e Letras Financeiras.
A predominância das LCAs reforça a conexão estrutural entre o cooperativismo de crédito e o financiamento do agronegócio. Como as cooperativas possuem forte atuação no crédito rural, especialmente junto a produtores pessoas físicas, a captação por meio de instrumentos ligados ao agronegócio se mostra alinhada ao perfil de suas operações.
Empréstimos e repasses ganham relevância nas cooperativas
As obrigações por empréstimos e repasses também cresceram em 2025. O estoque alcançou aproximadamente R$ 86,7 bilhões, consolidando essa fonte como um componente relevante da estrutura de captação das cooperativas.
O principal destaque nesse grupo foram os repasses do BNDES, que somaram cerca de R$ 52,0 bilhões em dezembro de 2025. Esse valor representava aproximadamente 60% das obrigações por empréstimos e repasses do SNCC.
O avanço dos repasses indica o papel crescente das cooperativas como canais de financiamento de investimentos produtivos. Esses recursos contribuem para operações de longo prazo, modernização de atividades econômicas, aquisição de máquinas e equipamentos e apoio a produtores, empresas e empreendedores locais.
Perfil das captações mostra força dos associados pessoas físicas
O perfil dos investidores do SNCC mostra predominância das pessoas físicas. Em dezembro de 2025, elas respondiam por aproximadamente 52% do estoque total de captações. As pessoas jurídicas representavam cerca de 33%, enquanto instituições financeiras respondiam por 15%. Os recursos de prefeituras tinham participação próxima de 0,5%.
Essa composição reforça a natureza associativa do modelo cooperativo. A base de captação está fortemente vinculada aos próprios associados, especialmente pessoas físicas e empresas que mantêm relacionamento com as cooperativas.
Ao mesmo tempo, o relatório mostra que, embora pequenos depositantes sejam numerosos, parte relevante do volume financeiro está concentrada em aplicações de maior valor. Essa característica exige gestão cuidadosa de liquidez, relacionamento com investidores e diversificação das fontes de funding.
Recursos municipais ampliam relação entre cooperativas e poder público local
O relacionamento das cooperativas com municípios cresceu de forma significativa nos últimos anos. Em dezembro de 2025, 373 cooperativas mantinham vínculos com 2.670 municípios e 5.233 entidades municipais, incluindo órgãos, entidades e empresas controladas pelos municípios.
Os depósitos municipais nas cooperativas chegaram a R$ 4,33 bilhões em 2025. Em 2021, esse valor era de R$ 1,65 bilhão. O crescimento acumulado foi superior a 150% em quatro anos, embora a participação desses recursos ainda seja baixa no total de depósitos à vista e a prazo do SNCC.
Esse avanço mostra que as cooperativas vêm ampliando sua relação institucional com o poder público local. Em muitos municípios, especialmente de pequeno porte, a cooperativa já possui presença física, relacionamento comunitário e conhecimento da realidade econômica, o que favorece a prestação de serviços financeiros aos entes municipais.
Nova regra libera potencial de crédito local nas cooperativas
Um dos pontos mais relevantes do relatório é a análise dos efeitos da Resolução CMN 5.273/2025, que revisou os requisitos prudenciais para a captação de recursos municipais por cooperativas de crédito.
Pelas regras anteriores, parcela expressiva dos recursos captados de municípios precisava permanecer aplicada em títulos públicos federais. Segundo o estudo de impacto apresentado pelo Banco Central, antes da nova norma, aproximadamente R$ 4,09 bilhões deveriam ficar direcionados a títulos públicos federais, enquanto apenas R$ 0,76 bilhão tinha livre aplicação.
Com a nova regra, a aplicação obrigatória em títulos públicos federais cai para cerca de R$ 0,72 bilhão, enquanto a parcela de livre aplicação sobe para aproximadamente R$ 4,13 bilhões. Na prática, mais de R$ 3 bilhões deixam de ficar obrigatoriamente vinculados a títulos públicos e passam a ter potencial de direcionamento para crédito local.
Cooperativas com restrições caem de 240 para 16
O impacto da nova regulamentação também aparece na quantidade de cooperativas afetadas pelos requisitos prudenciais. Antes da Resolução CMN 5.273/2025, 240 cooperativas estavam sujeitas às restrições de alocação dos recursos municipais. Após a mudança, esse número caiu para apenas 16 cooperativas.
Com isso, mais de 200 cooperativas deixam de estar sujeitas à obrigação de manter parcela significativa desses recursos em títulos públicos federais. A mudança amplia a flexibilidade de aplicação e pode fortalecer a oferta de crédito nas regiões onde esses valores são captados.
Esse ponto é estratégico para o cooperativismo financeiro. Recursos captados de municípios podem, observados os limites prudenciais e a adequada gestão de riscos, contribuir para financiar empresas, produtores, empreendedores e atividades econômicas locais, ampliando o impacto das cooperativas no desenvolvimento regional.
Captação municipal exige gestão prudente e controles robustos
Embora a nova regra amplie o potencial de uso dos recursos municipais, o Banco Central também chama atenção para a necessidade de gestão prudente. Recursos públicos exigem controles internos adequados, acompanhamento de liquidez, limites de concentração e governança compatível com a responsabilidade envolvida.
A captação de recursos municipais tem características específicas. Os saldos podem variar conforme ciclos fiscais, decisões administrativas, convênios, calendário de arrecadação e execução orçamentária. Por isso, as cooperativas precisam evitar dependência excessiva desse tipo de funding e manter estrutura de liquidez capaz de absorver eventuais saques relevantes.
A revisão regulatória busca equilibrar dois objetivos: permitir melhor uso econômico dos recursos captados de municípios e preservar a segurança dos valores públicos. Para que essa oportunidade gere efeitos positivos, a ampliação da livre aplicação deve ser acompanhada por governança, controles, gestão de riscos e transparência.
Principais números das captações no Panorama SNCC 2025
O Panorama SNCC 2025 reúne dados importantes sobre a evolução das captações das cooperativas de crédito. Entre os principais números, destacam-se:
- Captações totais do SNCC: R$ 834,4 bilhões;
- Crescimento anual das captações: 17,6%;
- Depósitos a prazo: R$ 430,7 bilhões;
- Participação dos depósitos a prazo nas captações: 51,7%;
- LCA, LCI e Letras Financeiras: R$ 117,3 bilhões;
- Estoque de LCA: R$ 102,5 bilhões;
- Participação da LCA no total de letras: aproximadamente 88%;
- Depósitos à vista: R$ 105,8 bilhões;
- Empréstimos e repasses: aproximadamente R$ 86,7 bilhões;
- Repasses do BNDES: cerca de R$ 52,0 bilhões;
- Depósitos de poupança: R$ 53,6 bilhões;
- Participação das pessoas físicas nas captações: aproximadamente 52%;
- Participação das pessoas jurídicas: aproximadamente 33%;
- Depósitos municipais: R$ 4,33 bilhões;
- Municípios com relacionamento com cooperativas: 2.670;
- Entidades municipais relacionadas: 5.233;
- Recursos municipais com livre aplicação após a nova regra: aproximadamente R$ 4,13 bilhões;
- Cooperativas com restrições após a nova regra: 16.
Cooperativas podem transformar captação em desenvolvimento local
A evolução das captações mostra que as cooperativas de crédito vêm ampliando sua capacidade de reunir recursos e direcioná-los para a economia real. Depósitos a prazo, LCAs, repasses e recursos municipais formam uma base importante para sustentar a expansão do crédito.
No modelo cooperativo, esse ciclo tem uma característica própria: os recursos captados junto aos associados e comunidades tendem a retornar para as regiões na forma de crédito, atendimento, serviços financeiros e apoio a atividades produtivas. Essa lógica fortalece o vínculo entre captação local e desenvolvimento local.
A nova regra dos recursos municipais amplia essa possibilidade. Ao reduzir a parcela obrigatoriamente vinculada a títulos públicos federais, a regulamentação permite que mais recursos circulem nas próprias comunidades, desde que as cooperativas mantenham adequada gestão de riscos e liquidez.
Nova fase exige funding estável, eficiente e bem administrado
O crescimento das captações é uma condição essencial para que o cooperativismo financeiro siga ampliando sua participação no Sistema Financeiro Nacional. Sem funding estável, diversificado e competitivo, não há expansão sustentável do crédito.
Ao mesmo tempo, o Panorama mostra que o custo de captação se tornou um dos principais desafios das cooperativas. Em 2025, as despesas de captação cresceram de forma expressiva e passaram a responder por parcela relevante das despesas totais das cooperativas singulares.
A próxima etapa do cooperativismo de crédito exigirá equilíbrio entre crescimento, custo de funding, liquidez, rentabilidade e impacto local. As cooperativas precisarão continuar atraindo recursos, mas também administrar esses recursos com eficiência, prudência e foco no desenvolvimento dos associados e das comunidades onde atuam.
Elaborado pelo Portal do Cooperativismo Financeiro – cooperativismodecredito.coop.br
Conheça o conteúdo completo no Panorama do Sistema Nacional de Crédito Cooperativo (SNCC).

