Por que as pessoas escolhem uma cooperativa, por Márcio Port

Por que as pessoas escolhem uma cooperativa, por Márcio Port

Em muitos momentos da vida tomamos decisões importantes sem conseguir explicá-las de imediato. Sabemos que fizemos a escolha certa, sentimos que ela faz sentido, mas quando alguém pergunta “por que as pessoas escolhem uma cooperativa?”, demoramos alguns segundos para organizar os argumentos.

Isso acontece porque nem todas as decisões são tomadas apenas pela lógica. Muitas nascem da identificação com valores, com uma forma de ver o mundo ou com uma causa que faz sentido para nós.

Escolher uma cooperativa como instituição financeira muitas vezes acontece assim.

Raramente essa decisão é explicada apenas por taxas, produtos ou condições comerciais. Esses fatores podem até influenciar, mas dificilmente são o ponto de partida. Em muitos casos, a escolha nasce de algo mais profundo: da percepção de que existe ali uma forma diferente de organizar a atividade financeira, uma forma mais alinhada com determinados valores.

A importância de começar pelo “porquê”

Esse tipo de reflexão ajuda a entender uma ideia que ganhou destaque nos últimos anos no campo da liderança e das organizações: a importância de começar pelo “porquê”. Por que as pessoas escolhem uma cooperativa?

Segundo o pensamento difundido por Simon Sinek, organizações e líderes inspiradores não começam explicando o que fazem. Eles começam explicando por que existem. O “o quê” é o produto ou serviço. O “como” é a forma de fazer. Mas o “porquê” é a causa, a crença que dá sentido àquilo tudo.

Quando as pessoas se identificam com esse porquê, a relação deixa de ser apenas transacional. Ela passa a ser baseada em valores compartilhados.

Isso ajuda a explicar por que algumas organizações conseguem construir relações extremamente duradouras com seus clientes, colaboradores e parceiros. Não é apenas porque oferecem bons produtos. É porque as pessoas se reconhecem na causa que aquela organização representa.

No caso do cooperativismo, o ponto de partida também não é o produto financeiro.

O cooperativismo nasce de uma crença: a de que é possível construir uma sociedade mais equilibrada quando as pessoas se organizam coletivamente para atender suas próprias necessidades. Em vez de concentrar decisões e resultados em poucos, o modelo cooperativo propõe uma lógica diferente, baseada na participação, na proximidade e na distribuição mais ampla dos benefícios gerados.

Nesse sentido, o cooperativismo não é o “porquê”. Ele é o “o quê”.

O porquê é maior: contribuir para a construção de um mundo melhor, de uma sociedade mais justa e de uma prosperidade que seja compartilhada.

A cooperativa surge como instrumento para tornar essa visão possível.

Uma instituição financeira que represente a sua forma de pensar

Quando uma pessoa escolhe uma cooperativa, muitas vezes está procurando uma instituição financeira que represente a sua forma de pensar. Não está apenas abrindo uma conta ou contratando um serviço. Está optando por um modelo que acredita gerar impactos diferentes na sociedade.

Essa percepção se torna ainda mais clara quando pensamos no destino do dinheiro que movimentamos.

O mesmo recurso financeiro pode produzir efeitos muito distintos dependendo da lógica da instituição onde ele circula. Em uma cooperativa, os recursos tendem a permanecer mais próximos das comunidades onde foram gerados. Eles retornam em forma de crédito, apoio a atividades produtivas, desenvolvimento local e fortalecimento das economias regionais.

Essa dinâmica cria um ciclo virtuoso. O dinheiro movimentado pelas pessoas ajuda a financiar oportunidades para outras pessoas do mesmo território.

Quando essa compreensão se torna consciente, a escolha por uma cooperativa ganha um significado ainda maior. A decisão financeira passa a ser também uma decisão sobre o tipo de impacto que queremos gerar no lugar onde vivemos.

As cooperativas têm compromisso com o futuro, com as próximas gerações

Esse olhar também ajuda a entender outra diferença importante: a forma como as instituições se posicionam em relação ao tempo.

Algumas organizações operam com foco quase exclusivo no curto prazo. A prioridade é o resultado imediato, o ganho rápido, o desempenho do próximo trimestre. Essa lógica, muitas vezes chamada de “jogo finito”, privilegia vitórias momentâneas, mesmo que elas tragam consequências negativas no longo prazo.

Existe, porém, outra forma de encarar a atividade econômica: como um processo contínuo, que precisa ser sustentável ao longo do tempo e que considera também o impacto sobre as gerações futuras. Nessa lógica, a confiança construída com as pessoas passa a ser um dos ativos mais importantes de uma instituição.

Essa diferença não é apenas teórica. O próprio mercado financeiro já assistiu e assiste a episódios em que instituições, ao priorizar ganhos imediatos, acabaram rompendo relações de confiança com milhares de clientes. Quando isso acontece, os efeitos não atingem apenas aquela organização. Eles abalam a confiança no sistema como um todo e deixam um rastro de insegurança e prejuízo para muitas famílias e empresas.

A construção de relações duradouras exige outro tipo de postura. Ela depende de coerência ao longo do tempo, de responsabilidade nas decisões e de compromisso com algo que vá além do resultado imediato.

O cooperativismo, por sua própria natureza, tende a se alinhar mais a essa lógica de longo prazo. Como os próprios associados participam da instituição, as decisões precisam levar em conta não apenas o desempenho de hoje, mas a sustentabilidade da organização e o impacto sobre a comunidade no futuro.

A escolha por uma cooperativa revela algo importante sobre quem escolhe

É justamente essa perspectiva que faz com que muitas pessoas se identifiquem com o modelo cooperativo. Elas não estão procurando apenas eficiência financeira. Estão procurando uma instituição que compartilhe uma visão de desenvolvimento mais equilibrado e coletivo.

Isso também explica por que relações baseadas em propósito costumam ser mais duradouras. Quando alguém escolhe apenas um produto, qualquer pequena diferença pode ser suficiente para trocar de fornecedor. Mas quando a escolha envolve valores e crenças, a relação ganha outra dimensão.

As pessoas permanecem não apenas porque é conveniente, mas porque acreditam naquilo que está sendo construído.

Nesse contexto, a escolha por uma cooperativa revela algo importante sobre quem escolhe. Ela mostra que, para muitas pessoas, as decisões financeiras também podem ser decisões sobre o tipo de sociedade que desejam ajudar a construir.

Por que as pessoas escolhem uma cooperativa

Mas então, por que as pessoas escolhem uma cooperativa? Mais do que escolher uma instituição financeira, elas escolheram participar de uma ideia.

Uma ideia simples, mas poderosa: a de que prosperar juntos é melhor do que prosperar sozinho.


Por Márcio Port, presidente do conselho de administração da Central Sicredi Sul/Sudeste e autor do livro “Cooperativismo Financeiro, uma história com propósito“, publicado em 2022. É coautor dos livros “Cooperativismo de Crédito Ontem, Hoje e Amanhã”, publicado em 2012 e “Cooperativismo Financeiro: percurso histórico, perspectivas e desafios“, publicado em 2014.

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