Porque somos uma cooperativa…, por Márcio Port

Vivemos um tempo de pressa, de ruído e de distâncias. Um tempo em que muitas instituições se afastam das pessoas, fecham portas e concentram decisões longe de quem produz, trabalha e sonha. É justamente nesse cenário que uma pergunta simples ganha força: por que fazemos o que fazemos?

A resposta, para nós, cabe em uma única frase — e ela começa sempre do mesmo jeito: porque somos uma cooperativa.

Não se trata de um detalhe jurídico, nem de um discurso. É a nossa essência. Uma cooperativa é uma sociedade de pessoas, que existe para servir quem a constrói. O associado não é um cliente de quem se extrai resultado: ele é, ao mesmo tempo, dono e razão de tudo. E quando se entende isso, tudo o mais passa a fazer sentido.

Porque somos uma cooperativa, quem decide são as pessoas. Aqui, cada associado vale um voto, independentemente do tamanho do seu capital. São os próprios associados que elegem os coordenadores de núcleo e os conselheiros que dirigem a instituição. A decisão não desce de um andar distante: ela nasce perto de quem vive a realidade de cada comunidade. É a democracia praticada no dia a dia, e não apenas proclamada.

Porque somos uma cooperativa, não perseguimos o lucro — perseguimos o associado. Sem a pressão de remunerar acionistas, conseguimos praticar condições mais justas, e o próprio Banco Central reconhece que as cooperativas oferecem taxas menores. Em 2025, o Sicredi devolveu R$ 3,4 bilhões diretamente aos associados (por meio da remuneração do capital social e da distribuição de resultados), e o conjunto desse esforço gerou um benefício econômico de R$ 31,1 bilhões — uma economia média de mais de três mil reais para cada pessoa associada. Não como favor, mas como consequência natural daquilo que somos.

Porque somos uma cooperativa, a riqueza gerada fica onde nasce. O recurso que se deposita vira crédito ali mesmo, na mesma comunidade, e o resultado não migra para uma matriz distante: volta para quem ajudou a construí-lo. É o que chamamos de círculo virtuoso do cooperativismo: o associado investe, esse recurso vira crédito local, o negócio cresce, gera renda e emprego, o resultado fica na região — e o ciclo recomeça, ampliado. Não é uma imagem bonita: é um efeito medido. Cada real de crédito cooperativo movimenta dois reais e meio na economia, e os municípios que recebem uma cooperativa registram crescimento do PIB por habitante acima da média. Onde a cooperação chega, a região inteira prospera.

Porque somos uma cooperativa, estamos onde muitos preferem não estar. E isso não é apenas vontade: é vocação comprovada. Um estudo da PUC-Rio mostrou que um banco tradicional, em média, só abre uma agência em cidades a partir de oito mil habitantes; uma cooperativa de crédito consegue chegar a municípios de pouco mais de dois mil. Nesse intervalo existem cerca de 1,9 mil cidades e nove milhões de pessoas que, estruturalmente, só o cooperativismo é capaz de atender. Não por acaso, em 469 municípios brasileiros a cooperativa de crédito é a única instituição financeira presente — e, em 236 deles, essa presença é o Sicredi, muitas vezes em lugares com menos de dois mil habitantes. Enquanto parte do sistema tradicional recua, nós avançamos, porque o nosso compromisso não é com o mapa mais rentável, mas com as pessoas que vivem em cada lugar.

Porque somos uma cooperativa, ficamos juntos nas horas mais difíceis. Foi assim na pandemia e foi assim nas enchentes do Rio Grande do Sul, quando mantivemos o crédito ativo e a mão estendida no momento de maior necessidade. Estar presente quando dói não é uma campanha: é a razão de existir.

E porque somos uma cooperativa, devolvemos à comunidade muito mais do que serviços financeiros. Por meio do Fundo Social e dos nossos programas, milhares de projetos e milhões de pessoas são alcançados a cada ano, em educação, cultura, saúde e inclusão — sempre escolhidos pela própria comunidade, sempre plantados no próprio território.

Há pouco, uma pesquisa do Sicredi com o Datafolha confirmou, com método, aquilo que vivemos todos os dias: para o brasileiro, prosperar é muito mais do que dinheiro. É bem-estar, é propósito, é pertencimento. E não por acaso, é justamente no interior — onde os laços são mais próximos — que mais pessoas se sentem plenamente prósperas. A prosperidade verdadeira é coletiva. Ela floresce onde há cooperação.

Neste Dia Internacional do Cooperativismo, celebrado no primeiro sábado de julho, o movimento cooperativo global escolheu um tema que parece feito para o nosso tempo: cooperativas por um mundo mais pacífico. Cooperativas como construtoras de pontes — que aproximam comunidades, reconstroem confiança e lembram que ninguém prospera sozinho. É exatamente o que fazemos quando reunimos pessoas em torno de um propósito comum: transformamos competição em colaboração, e individualismo em pertencimento. A paz, afinal, também se constrói assim — com inclusão, com participação e com oportunidades que chegam a todos.

Por isso seguimos. Plantando hoje as sementes cujos frutos e cuja sombra serão das próximas gerações. Construindo, junto com cada associado e cada comunidade, uma sociedade mais próspera, mais justa e mais humana.

Tudo isso não é estratégia. É consequência. E a explicação cabe, sempre, na mesma frase: porque somos uma cooperativa.


Márcio Port é presidente da Central Sicredi Sul/Sudeste e autor do livro “Cooperativismo Financeiro: uma história com propósito” (2022).

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