“Os membros eleitos para cargos de responsabilidade em uma cooperativa devem refletir amplamente a diversidade do quadro social. Caso contrário, é necessário tomar medidas concretas para incentivar homens e mulheres de grupos sub-representados a se candidatarem”. (Aliança Cooperativa Internacional/ACI – Notas de orientação aos princípios cooperativistas – 2º Princípio – item 3 – ‘Refletindo a diversidade’ – https://ccr.ica.coop/en/media/library/research-and-reviews/guidance-notes-cooperative-principles)
O cooperativismo financeiro brasileiro, a par de um conjunto de atributos que já o tornam relevante em seu mercado – sobretudo como agente de prosperidade territorial e promotor de justiça financeira –, ainda carece de maior sincronia entre a estratificação do seu contingente associativo e a correspondente presença nos órgãos superiores de administração.
Com efeito, embora haja progressos recentes, o segmento ainda está distante da inclusão e da paridade que sugerem sua doutrina (em especial o segundo de seus princípios universais, que exalta a democracia cooperativista); propõe o Pacto Global da Organização das Nações Unidas (notadamente em seu 5º Objetivo de Desenvolvimento Sustentável, que proclama o empoderamento feminino) e recomendam as boas práticas de governança.
Nunca é demasiado lembrar – e isso se aplica para além do ambiente cooperativo – que a verdadeira democracia pressupõe que os órgãos de governança repercutam a pluralidade da sociedade que representam. Sua ausência deixa de ser mera falha estatística e tende a implicar crise de legitimidade e desalento sob a ótica de quem não se sente acolhido ou pertencente.
Nesta rápida abordagem, damos ênfase à expressiva desconexão de idade e gênero entre a comunidade associativa e o seu espelhamento nos conselhos de administração e nas diretorias executivas das instituições financeiras cooperativas.
Considerando os dados de dezembro de 2025 (disponíveis no Banco Central do Brasil – BCB), a proporção entre mulheres e homens cooperados é de 44,56% para 55,44%. Já na perspectiva da faixa etária, cerca de 23% dos membros têm idade inferior a 30 anos.
Olhando para o perfil dos integrantes dos conselhos de administração das cooperativas (Unicad/BCB – abril de 2026), vemos que 82,3% são homens e apenas 17,7% são mulheres – percentuais muito próximos da realidade do conjunto do Sistema Financeiro Nacional (SFN), de 82,7% e 17,3%.
Quando a referência são as lideranças desses colegiados cooperativos, a distância é bem mais acentuada: 91,8% são homens e somente 8,2% mulheres, fotografia semelhante à do combinado da indústria financeira, âmbito no qual elas presidem os conselhos unicamente em 8,3% das instituições.
Na dimensão executiva, por sua vez, ainda que o cenário seja um pouco mais alentador, também viceja a dessintonia entre a composição do quadro social e o correlato protagonismo nos cargos de diretores e diretoras. Aqui, nas cooperativas, o público masculino domina com 75,7% das posições, enquanto as mulheres detêm 24,3% dos postos. No agregado do SFN, a disparidade é ainda maior: eles são 80,3% e elas, 19,7%.
Por fim, no que se refere às posições de liderança nesse órgão estatutário, o gap é de 78% (homens) para 22% (mulheres), contra 86,2% e 13,8% no SFN (neste caso, as cooperativas apresentam desempenho ligeiramente melhor).
Com relação à idade média dos membros de órgãos estatutários, computando homens e mulheres, é de 58 anos entre os conselheiros e de 52 anos entre os diretores, padrão que se repete no SFN como um todo (57 e 51 anos, respectivamente).
Levando em conta exclusivamente os administradores com até 30 anos – intervalo que reúne 23% das cooperadas e dos cooperados –, somam ínfimos 0,94% dos conselheiros de administração e 0,74% dos diretores. Do total de cooperativas, uma única mulher com 28 anos lidera o conselho de administração e três homens com até 30 anos comandam a diretoria executiva.
Caso envolvêssemos outros elementos demográficos (como cor/raça, por exemplo), possivelmente (trata-se de uma inferência de difícil objeção) teríamos um retrato ainda mais excludente.
Em síntese, a isonomia de gênero, idade e associada a outras características individuais, cotejando a configuração societária com a distribuição dos postos na administração superior das cooperativas financeiras, reivindica gestos firmes e bem mais generosos por parte daqueles que estão à frente do movimento, sempre louvadas as exceções cujos exemplos hão de servir de modelo e incentivo para as entidades coirmãs.
Nesse sentido, assim como o BCB propôs desígnios claros na Agenda BC# para o Sistema Nacional de Crédito Cooperativo (SNCC) em relação à atuação nas regiões Norte e Nordeste, por exemplo, uma aspiração mais concreta poderia considerar a evolução da equivalência demográfica em pelo menos 10%, em termos absolutos, nos próximos cinco anos para cada um dos grupos descritos.
O atingimento desse alvo reforçaria a convergência do movimento com os seus mandamentos filosóficos e as convenções humanitárias internacionais, e consolidaria o segmento como o mais inclusivo dentro do SFN.
Por fim! Sem desconhecer a ambição e o esforço, imprescindíveis, das próprias mulheres, os homens, dado que somos a larga maioria à frente das entidades, temos o poder e o dever de encaminhar as mudanças e promover os estímulos institucionais necessários (como preconiza a ACI), inclusive por meio de políticas afirmativas. A eventual solução pelo decurso natural do tempo, dada a estatística que nos precede, certamente adiaria o equilíbrio por décadas!
Ênio Meinen, autor de “Cooperativismo financeiro: da consolidação para a perpetuação” (Confebras, 2025).

