A ideia de que conselhos harmoniosos demais representam boa governança está profundamente enraizada no mundo corporativo e também no cooperativismo de crédito. Em geral, associa‑se harmonia a maturidade institucional, eficiência e capacidade de construção coletiva. No entanto, essa percepção, embora intuitiva, pode esconder um risco relevante: a perda do contraditório qualificado e, com isso, a deterioração da qualidade das decisões.
Esse alerta é reforçado por reflexões recentes sobre governança e dinâmica de conselhos, que apontam que ambientes excessivamente agradáveis tendem a reduzir o questionamento — justamente quando ele é mais necessário.
A provocação de Lucy Kellaway sobre conselhos “bons demais”
Parte central dessa discussão dialoga com as análises de Lucy Kellaway, jornalista britânica especializada em liderança, cultura organizacional e poder nos altos escalões. Por mais de duas décadas, Kellaway foi uma das principais colunistas do Financial Times, tornando‑se referência internacional ao examinar, com olhar crítico e pragmático, o funcionamento real de conselhos de administração e equipes executivas.
Em suas colunas sobre governança, Lucy Kellaway chama atenção para um paradoxo recorrente: conselhos excessivamente educados, cordiais e consensuais tendem a tomar decisões piores. Segundo a autora, quando todos se esforçam demais para evitar atritos, o debate perde profundidade, premissas deixam de ser testadas e riscos relevantes permanecem fora da mesa.
Sua provocação desloca o foco tradicional da governança. Em vez de perguntar se o conselho é coeso ou bem‑relacionado, a questão passa a ser outra: existe espaço real para discordar? Ou o consenso se transformou em uma zona de conforto?
Quando o consenso vira zona de conforto
Conselhos de administração são, por natureza, órgãos colegiados. Reúnem profissionais experientes, com trajetória sólida e elevado senso de responsabilidade fiduciária. Ainda assim, esses ambientes são particularmente suscetíveis ao fenômeno conhecido como groupthink — o pensamento de grupo.
O groupthink ocorre quando o desejo de preservar a coesão e evitar desconfortos leva os conselheiros a concordarem rapidamente, sem aprofundar riscos, alternativas ou cenários. Importante destacar: não se trata de falta de capacidade técnica. Pelo contrário. Muitos dos maiores fracassos de governança ocorreram em conselhos altamente qualificados. O que falhou, nesses casos, foi a dinâmica do grupo.
O valor estratégico do contraditório
É nesse ponto que surge a figura do conselheiro questionador — frequentemente mal compreendida. Em ambientes orientados à harmonia, quem questiona tende a ser visto como “difícil”, “incômodo” ou desalinhado. Sob a ótica da boa governança, no entanto, seu papel é essencial.
O questionamento construtivo introduz o que se pode chamar de fricção cognitiva: uma tensão saudável que obriga o grupo a revisar hipóteses, testar decisões e explorar cenários alternativos. Na prática, esse processo contribui para:
- evitar decisões precipitadas;
- expor riscos que não estavam visíveis;
- ampliar o repertório analítico do conselho;
- reduzir o excesso de confiança;
- elevar o rigor do processo decisório.
Mesmo quando não altera a decisão final, o contraditório qualifica profundamente o caminho até ela.
Construtivo ou destrutivo: uma distinção essencial
Nem toda divergência gera valor. É fundamental distinguir o desafiador construtivo do desafiador destrutivo. O primeiro questiona ideias, respeita pessoas e está comprometido com o interesse institucional. O segundo personaliza o debate, busca protagonismo e compromete o funcionamento do colegiado.
O problema é que, ao tentar evitar conflitos improdutivos, muitas organizações acabam eliminando também o contraditório saudável. O resultado é um conselho excessivamente confortável — e, paradoxalmente, mais vulnerável.
O desafio adicional nas cooperativas de crédito
No cooperativismo de crédito, esse dilema ganha contornos ainda mais sofisticados. Conselhos cooperativos costumam apresentar características que são, ao mesmo tempo, virtudes e potenciais riscos:
- maior homogeneidade entre os membros;
- relações pessoais de longo prazo;
- cultura fortemente orientada ao consenso e à construção coletiva.
Esses elementos fortalecem o alinhamento e o propósito, mas podem reduzir a disposição para o enfrentamento de temas sensíveis ou a contestação de decisões estratégicas. Justamente por seu compromisso com a perenidade, com os associados e com a comunidade, as cooperativas precisam de conselhos capazes de combinar colaboração com rigor analítico.
Independência real para discordar
Outro aspecto central dessa discussão é a independência do conselheiro. Na prática, independência não se resume a critérios formais ou estatutários, mas à capacidade efetiva de contrariar, questionar e exercer supervisão sem receio de isolamento, retaliações ou perda de espaço.
Sem essa independência prática, o contraditório tende a desaparecer não por falta de percepção, mas por ausência de segurança para se manifestar. O conselho passa a “ver”, mas não questiona — e, assim, deixa de cumprir integralmente seu papel.
A liderança do conselho como fator crítico
A construção de um ambiente que valorize o contraditório não ocorre de forma espontânea. Ela depende, sobretudo, da atuação do presidente do conselho e da liderança colegiada.
Cabe à liderança:
- legitimar o questionamento qualificado;
- proteger quem traz visões divergentes;
- manter o foco nas ideias, não nas pessoas;
- assegurar um ambiente de segurança psicológica.
Sem essas condições, mesmo conselheiros experientes tendem ao silêncio estratégico.
Governança não é conforto, é qualidade de decisão
A principal lição é clara: governança não se mede pelo grau de harmonia de um conselho, mas pela qualidade das decisões que ele é capaz de produzir. E decisões de qualidade exigem confronto de ideias, rigor analítico e coragem para discordar.
Em última análise, o maior risco não está na divergência — está na ausência dela. Porque conselhos harmoniosos demais podem funcionar bem no curto prazo, mas são justamente esses que correm maior risco de falhar quando realmente importa.
Elaborado pelo Portal do Cooperativismo Financeiro – cooperativismodecredito.coop.br

